Curiosidades 01: Nove fatos sobre As Crônicas de Gelo e Fogo que você talvez não soubesse

Postado por - segunda-feira, junho 15, 2015



     Oie, . Como cê tá? Eu estou muito bem, obrigada, e aqui inaugurando uma nova coluna. Ela não terá data fixa para aparecer no blog, mas será esporádica. Sempre que eu encontrar coisas legais para postar, o farei. Sobre essas curiosidades envolvendo As Crônicas de Gelo e Fogo (até ano que vem, série!), foi um post que amei fazer porque desmitifiquei algumas coisas nas quais eu acreditava e descobri outras novas. Tive ajuda dos meus maravilhosos leitores parceiros (conheça-os aqui e torne-se um aqui) e também do meu namorado, Helder. Espero que você goste do post - e que pelo menos uma dessas curiosidades o surpreenda. Boa leitura!


1. MARTIN INSPIROU-SE EM SUAS TARTARUGAS DE ESTIMAÇÃO PARA ESCREVER OS LIVROS


Imagem retirada do site www.simplethingcalledlife.com

           Sim, é isso mesmo que você leu. Não fossem as tartarugas de Martin, provavelmente não teríamos As Crônicas de Gelo e Fogo. Em uma entrevista na Comic Con de San Diego em 2012 ele disse, inclusive, que seu brasão é uma tartaruga.
As tartarugas sempre foram meu brasão, acredito. Quando eu era criança, crescendo em Bayonne, Nova Jersey, eu morava em um conjunto habitacional federal, e não éramos autorizados a ter um cão ou gato. Os únicos animais que eu poderia ter eram tartarugas. Então eu tive todo um castelo de brinquedo enchido com tartaruga de dime-store*. Eu dei-lhes todos os nomes, e uma vez que eles estavam vivendo em um castelo de brinquedo, eu decidi que eram todos os cavaleiros e reis... E eu inventava histórias sobre como eles mataram e traíram uns aos outros e lutaram pelo reino. Então, Game of Thrones, na verdade, começou com tartarugas. Eu decidi depois reformular tudo com seres humanos reais.
           *Até onde entendi, uma loja com produtos por dez centavos.


           Complementando com outra entrevista do Martin, desta vez ao Financial Times:
(...) Aqueles eram os únicos animais que poderíamos ter. Eu tinha um castelo de brinquedo criado perto da minha cama, feita de estanho, o pátio era grande o suficiente apenas para dois tanques de tartaruga, e eu tinha cinco ou seis tartarugas que viveram no castelo. Decidi que eram cavaleiros, lordes e reis, então comecei a escrever esta série inteira de fantasia sobre o reino tartaruga e o rei das tartarugas. E estas tartarugas particularmente pareciam morrer muito fácil. Não acho que foi realmente um ambiente muito bom para eles... Às vezes, eles escapavam e você ia encontrá-los sob o refrigerador um mês depois, todos mortos. Então, minhas tartarugas continuavam a morrer, o que foi muito angustiante, mas também me fez pensar: "Por que eles estão morrendo? Bem, talvez estejam matando uns aos outros em tramas sinistras". Eu comecei a escrever essa fantasia sobre quem estava matando quem, e as guerras de sucessão. Então Game of Thrones originalmente começou com tartarugas, eu acho.

2.O FESTIM DOS CORVOS NÃO DEVERIA EXISTIR


          
           O que Martin queria, na realidade, era que o quarto livro de As Crônicas de Gelo e Fogo tratasse apenas de uma pausa narrativa de cinco anos entre A Tormenta de Espadas e A Dança dos Dragões - ou seja, não deveria ser um livro muito grande. No entanto, quando ele começou a escrever viu-se obrigado a colocar na história longos flashbacks para explicar o que acontecia no presente, mas percebeu que isso deixaria o ritmo da saga muito lento. Mesmo assim persistiu no projeto por dezoito meses, quando em setembro de 2001 decidiu jogar fora todo o trabalho que já estava feito e recomeçou do zero não sei nem o que dizer, só sentir. Teve, então, outro problema: O Festim dos Corvos, perto do seu fim, mostrou-se um livro muito grande para ser publicado em um único volume. Daniel Abraham, amigo e colaborador na série Wild Cards, ajudou-o a chegar à decisão de dividir o livro original, ficando metade das páginas em Festim e a outra metade em Dança. Após retirarem mais ou menos 500 páginas do manuscrito do quarto volume, ele foi publicado no final de 2005.
           Ok, muita gente odeia Festim, como já pude constatar em vários tópicos de discussão. Mas fico me perguntando: e essas 500 páginas retiradas? O quanto não devem ter de tramas políticas preciosas e até mesmo acontecimentos que ajudariam na formulação das melhores teorias? 


3. A MURALHA EXISTE (OU QUASE ISSO)


          
           Sim, nós, aqui do mundo real, temos nossa versão: a Muralha de Adriano (ou Hadrian’s Wall). Claro que a Muralha fictícia tem duzentos metros de altura, mais de quinhentos quilômetros de extensão e é feita de gelo, mas isso são detalhes.
           A Muralha de Adriano foi erguida em 122 D.C. sob ordens do imperador Adriano. Construída principalmente em pedra e madeira, é localizada no norte da Inglaterra. É a construção mais extensa do Império Romano, contando mais de 120 quilômetros de extensão. Simbolicamente, afirma-se que a muralha separava o mundo civilizado (romano) do mundo bárbaro. Tinha apenas 4,5 metros de altura por 2,5 metros de largura, mas no topo havia uma estrada de 1 metro de largura. No relato de Martin para a Smart Travel:
Eu vi a Muralha de Adriano, pela primeira vez em 1981. (...) Não havia mais ninguém por perto, e eu olhei para o norte com o crepúsculo e tentei imaginar o que era ser um romano na Muralha quando ela era usada como proteção quando era o fim do mundo romano, e você realmente não sabia o que viria das colinas ou o que iria sair da floresta. Os romanos chamavam homens de todo seu imenso império, então você poderia ser alguém da África ou da Síria ou do Egito, que havia sido designado para este posto. Que mundo estranho alienígena que seria para você. Então isso foi uma experiência profunda que ficou comigo. Mais de uma década mais tarde, quando comecei “As Crônicas”, eu ainda tinha essa visão e essa sensação de “eu gostaria de escrever uma história sobre as pessoas que guardavam o fim do mundo.” Mas, naturalmente, na fantasia você sempre pode brincar com essas coisas. A fantasia é maior e mais colorida, uma muralha simples de 10 pés de altura não ia fazer isso por mim. Minha Muralha tem mais de 200 metros de altura e é feita de gelo. E as coisas que vêm do norte são muito mais aterrorizantes do que escoceses ou pictos, que é o que os romanos tinham com que se preocupar.

4. INSPIRAÇÃO PARA A TRAMA NA GUERRA DAS ROSAS



           Essa todos já sabem: Martin inspirou-se também na Guerra das Rosas para construir a trama das Crônicas. Mas o que foi a Guerra das Rosas? Em resumo, uma disputa entre as dinastias York e Lancaster pelo trono inglês, disputa essa que durou 30 anos (1455 – 1485).
           Muita gente – e muitos sites – já fizeram suas listas de correlação entre os personagens reais da Guerra das Rosas e os fictícios d'As Crônicas. A respeito dessa questão, Martin foi bem claro: não há qualquer equivalência entre, por exemplo, Richard de York e Ned Stark, como muitos afirmam. Segundo o autor:
Eu gosto de usar a história para dar sabor a minha fantasia, para adicionar textura e verossimilhança, mas simplesmente reescrever a história com os nomes alterados não tem apelo para mim. Eu prefiro para reimaginar tudo isso, e levar em direções novas e inesperadas.

5. SEMELHANÇAS COM THE DRAGONBONE CHAIR



           Não, não é plágio. Temos sim alguns elementos bem semelhantes, como o garoto que ama escalar até o topo das construções, “monstros” no norte congelado e lobos como animais de estimação (ou quase isso). Essa descrição poderia referir-se às Crônicas, mas na verdade também se encaixa no livro The Dragonbone Chair, de Tad Williams. Martin disse que ler a série de Williams foi uma das coisas que o inspirou a começar a escrever os livros que tanto amamos.
           Agora falemos um pouco sobre The Dragonbone Chair. Ele é o primeiro livro da trilogia Memory, Sorrow and Thorn, sendo seguido por Stone of Farewell e To Green Angel Tower (que foi dividido em dois volumes). Em abril de 2014 Tad Williams anunciou que uma nova trilogia está vindo, e que a trama acontecerá 30 anos depois dos eventos de Memory, Sorrow and Thorn. Os títulos da nova trilogia são: The Witchwood Crown, Empire of Grass e The Navigator’s Children.
           Enfim, Memory, Sorrow and Thorn é uma saga extremamente recomendada para amantes de fantasia épica, mas infelizmente não conta com uma tradução. O primeiro volume foi publicado em 1988 (correção de Felipe Bini). Sua sinopse, em livre tradução, é essa:
Uma guerra alimentada pelos poderes sombrios de feitiçaria está prestes a engolir a terra pacífica de Osten Ard - pois Prester John, o Grande Rei, assassino do dragão pavor (?) Shurakai, está morrendo. E com a sua morte, um antigo mal será finalmente libertado, como o Storm King, o morto-vivo governante dos elvishlike Siti, que procura recuperar seu reino perdido através de um pacto com alguém de sangue real humano. Então, impulsionados pela inveja e ódio, príncipe lutará com príncipe, enquanto em torno deles na própria terra começa a morrer.

6. OS MASSACRES QUE INSPIRARAM O CASAMENTO VERMELHO



           É isso aí. Você acha que O Casamento Vermelho foi a pior tragédia que você já leu na ficção? Pois bem, os Massacre de Glencoe e Jantar Negro realmente aconteceram. 
           O Jantar Negro aconteceu em 24 de novembro de 1440 com o assassinato de jovens hóspedes do castelo de Edimburgo. Por que foram assassinados? Simples: eram todos sucessores do Conde Alchibard de Douglas – sendo o clã Douglas o mais poderoso da Escócia, regente e protetor do rei Jaime II enquanto ele não atingisse a maioridade. Claro que o cargo da regência é almejado por todos, mas apenas dois nobres resolveram dar cabo ao desejo: o Conde de Edimburgo e o Conde de Stirling. Assim, quando Conde Archibald, já velho e doente, morreu durante uma disputa, os condes anteriormente citados convidaram todos os sucessores do clã Douglas para jantar. Após a comida ser retirada, trouxeram à mesa a cabeça de um javali negro num prato. Tipo The Rains of Castamere: foi o sinal para que todos fossem mortos.
           Já o Massacre de Glencoe aconteceu centenas de anos mais tarde, em 1692, no dia 13 de fevereiro. O clã MacDonalds recebeu homens do exército inglês, incluindo entre estes conhecidos e parentes, que pertenciam a outros clãs. Então duas semanas depois, trinta e oito homens do clã foram mortos em suas próprias casas... pelos hóspedes. Sim, aqueles mesmos a quem haviam oferecido hospitalidade. Aqui a situação é inversa, pois não foram os anfitriões que cometeram assassinato. Após o massacre, os homens do exército queimaram todas as casas e muitas mulheres e crianças morreram, uma vez que o Clã MacDonalds ficava distante de outros clãs e elas estavam sem comida e provisões. O motivo do massacre? Punição aos MacDonalds por terem tardado a se apresentar e reconhecer os novos monarcas.


7. A MAIOR INFLUÊNCIA DE MARTIN FOI STAN LEE, NÃO TOLKIEN



           Segundo Martin, suas primeiras palavras publicadas para o mundo estavam em uma coluna de cartas de uma HQ de Quarteto Fantástico, da Marvel. Ainda prosseguindo a entrevista que deu no Festival do Livro de Edimburgo, apesar de todos chamá-lo de “Tolkien americano”, disse que Stan Lee influenciou e definiu sua escrita muito mais do que Tolkien.
         Martin afirmou ainda que Lee revolucionou as histórias em quadrinhos: seus personagens tinham uma caracterização mais profunda, conflitos intensos e o que ele chamou de “toques de cinza”, elementos dificilmente encontrados nas revistas da DC Comics, que acompanhavam uma “história circular” de Batman ou Superman em suas desventuras.
         Confira abaixo uma das cartas de Martin para a HQ de Quarteto Fantástico, quando ele tinha treze anos:

Clique na imagem para ampliar.
Caros Stan e Jack, O Quarteto Fantástico nº 17 foi mais do que ótimo. Mesmo agora eu estou sentado em êxtase, tentando fazer o impossível - ou seja, descrevê-lo. Foi absolutamente extraordinário, o melhor, o máximo! Eu não consigo entender como vocês colocaram tanta ação em tão poucas páginas. Ele (o nº 17) vai viver para sempre como um dos maiores quadrinhos do Quarteto Fantástico já impressos, logo, como um dos melhores de TODOS os quadrinhos. Em que outra revista em quadrinhos você pode ver coisas como um herói caindo em um bueiro, uma heroína confundindo um inventor de brinquedos com um criminoso, e o presidente dos EUA deixando uma conferência que pode determinar o destino do mundo para colocar sua filha na cama. A história épica, espetacular e emocionante como é, não é tudo o que fez esta revista tão maravilhosa. A coluna de cartas foi de alto nível também. Eu quase morri quando vi a carta de Paul Gambaccini. Vocês realmente o fizeram mudar de sintonia; essa carta estava muito distante da outra publicada no número 9. Depois, ainda há a capa ostentação* - A MAIOR REVISTA EM QUADRINHOS DO MUNDO! Brilhante! Vocês estavam na pior revista em quadrinhos quando começaram, mas definiram para si um ideal, e, por gumbo**, vocês conseguiram! Mais do que conseguiram, na verdade – porque se vocês fossem bons apenas a metade do que são agora, ainda estariam na melhor revista do mundo!
         *Colaboração do Vagner Stefanello.
         **Não tenho a menor ideia do que seja!
         Outras influências que podem ser citadas são: Walter Scott (Ivanhoé) e Bernard Cornwell. Martin os defende como fugindo da regra dos escritores de ficção histórica, que comumente ignoram fatos importantes da Idade Média como por exemplo a baixa expectativa de vida. Além disso, há também influência do romance histórico francês Os Rei Malditos, de Maurice Druon. Martin escreveu uma introdução para a tradução inglesa da série e de acordo com ele:
Os Reis Malditos têm tudo isso. Acreditem em mim, os Starks e os Lannisters não são nada comparados aos Capetos e aos Plantagenetas. É A Guerra dos Tronos original.
         Claro que Tolkien não fica de fora, e seus livros chamaram a atenção de Martin no sentido de que Senhor dos Anéis começa com toda a sociedade junta, que aos poucos separa-se e cada um começa a ter de lidar com os próprios desafios (um pouco parecido com os Starks para você?). Tolkien também ensinou seu leitor (e um de nossos autores favoritos) a usar a magia de forma sensata – afinal, até mesmo quando Gandalf está em perigo você o vê sacando a espada, não apelando para a magia e queimando todos ao redor. 

8. MARTIN APRENDEU A MATAR COM OS VINGADORES



         Além das tartaruguinhas lá em cima, você pode culpar a Marvel pelo sadismo de Martin. Mais especificamente, Os Vingadores - e mais especificamente ainda, o Wonder Man (ou Magnum aqui no Brasil).
Às vezes eu acho que Os Vingadores são os responsáveis por eu matar todas essas pessoas, porque mencionei que enviava cartas para revistas em quadrinhos, e uma das primeiras que enviei foi justamente sobre a questão de terem introduzido o Magnum. E, bem, você sabe, temos o Magnum, que se junta aos Vingadores, e secretamente ele é um agente duplo – mas quando a crise acontece, descobre sua bondade interior e não consegue matar os Vingadores como deveria, então ele morre heroicamente na mesma edição que o apresentou. Eu li em uma idade de formação, e como você pode ver isso me influenciou na questão dos personagens cinzentos que têm o bem e o mal dentro de si, e me fez entender que eu poderia introduzir um personagem muito legal e matá-lo imediatamente, provocando uma grande reação emocional.

9. O FOGOVIVO EXISTE



         Ok, fui sensacionalista. É quase isso. Temos a nossa versão: o fogo grego.
         Vamos primeiro para a ficção. Como você já deve saber, o fogovivo dentro do universo de As Crônicas de Gelo e Fogo é um líquido volátil que pode queimar por muito tempo (definição daqui). Uma arma devastadora cujo efeito vimos na Batalha de Blackwater, quando parte da frota de Stannis Baratheon foi incendiada. É uma substância que não se apaga e que continua queimando até se consumir por completo. Segundo a Guilda dos Alquimistas consultada por Tyrion Lannister, o fogovivo é criado através de magia.
         Já na vida real, o fogo grego foi usado pela marinha bizantina em batalhas navais lá pelos séculos IV – VI. Era uma substância que mesmo que caísse na água, continuava queimando. Especula-se até hoje a real composição do fogo grego, uma vez que a fórmula para a produção foi perdida. Segundo estudiosos, ele só podia ser extinto com areia, vinagre forte ou urina velha. Tornou-se uma arma extremamente temida e muitos tentaram reproduzi-la, mas nem uma das reproduções foi fiel à original.







         Bem, é isso. Aqui o post chega ao fim. Espero de verdade que você tenha gostado, assim em breve trarei mais posts na coluna. E se você conhece algum outro fato curioso que eu não citei, diz aí nos comentários!

Os leitores parceiros que contribuíram para o post foram: Márcio Reis, que indicou a curiosidade 8, e Marcela Renovato, que ajudou a complementar a curiosidade 5. Obrigada, gente!



Você também pode gostar de:

0 comentários