Resenha || A Profecia do Paladino - ou porque clichês não são ruins

Postado por - terça-feira, abril 05, 2016



  Título da Série: A Profecia do Paladino
  Título do Livro: A Profecia do Paladino (1º livro)
  Autor: Mark Frost
  Editora/Tradução: Galera Record/Glenda D'Oliveira
  Páginas: 420
  Ano de Publicação: 2016
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  Livro cedido em parceria com a editora.
  

Sinopse Will West faz de tudo para não chamar a atenção. A pedido dos pais, ele se esforça para tirar notas medíocres e não se destacar. Mas quando sua escola o obriga a fazer uma prova de desempenho geral, ele acaba se esquecendo de errar algumas respostas. Seu resultado espetacular atrai o interesse de uma das escolas particulares mais exclusivas do país, que o procura para oferecer uma bolsa de estudos. No entanto, assim que recebe essa oferta, começa a ser seguido por homens misteriosos e sedãs pretos. Ao tentar escapar de perseguidores, seus pais desaparecem e Will acaba se matriculando às pressas no misterioso colégio. Chegando à sua nova escola, ele percebe possuir talentos físicos e mentais que beiram o impossível e descobre que suas habilidades estão conectadas a uma batalha milenar entre forças épicas.

Experimente sentar em uma roda de amigos leitores e apresentar um livro desconhecido. Este livro deve seguir a Jornada do Herói (ou Monomito). É o aspecto mais clichê observado nas obras fantásticas hoje em dia, especialmente dentro do gêner infanto-juvenil. São histórias que apresentam na maioria das vezes nessa ordem: o cotidiano do protagonista, uma situação extraordinária que tira sua vida dos eixos, a recusa em aceitar essa situação, a travessia do primeiro limiar (que pode ser uma prova como ter de deixar alguém que ama para trás), então aparecem os testes, aliados e inimigos, sendo que os testes culminam numa tensão impossível de se aguentar que por fim se direciona à provação suprema, aquela situação que deixa seu coração acelerado mesmo que você saiba que o protagonista ficará bem. Tudo resolvido? Agora vamos à recompensa e ao retorno do herói totalmente transformado (ou às vezes transtornado). Essa é uma síntese do Monomito e você pode ler melhor sobre ele no livro O Herói de Mil Faces de Joseph Campbell
É mais ou menos isso tudo que rola em A Profecia do Paladino. Mas também é um formato um tanto genérico que pode se encaixar em Harry Potter, Percy Jackson, A Tapeçaria, Vampiratas, O Hobbit e um sem-número de livros de fantasia infanto-juvenis. Então, como eu disse logo acima, experimente sentar em uma roda de amigos, mostrar A Profecia do Paladino e puxar uma conversa sobre o Monomito. Eu, pelo menos, já vi muitas críticas no sentido de que segui-lo demonstra falta de criatividade. A minha opinião é: usá-lo demanda muita maestria por parte do autor. Criar é tão difícil quanto reinventar. Eles utilizam o Monomito, adaptam de sua maneira e se destacam. Por que utilizar essa técnica de desenvolvimento de texto deveria significar que eles são menos do que quem não a usa? Foi um ponto que a leitura me fez refletir.

A história acompanha Will West, um garoto que tem a vida regida pelas Lista de Regras do Papai de Como Viver, um conjunto de 98 normas que seu pai, Jordan, criou. Desde sempre Will foi orientado a segui-las sem hesitar também pela mãe. Uma das principais regras diz respeito a não confiar em ninguém, e como eles viviam se mudando de cidade, o garoto cresceu sem saber o que é ter uma amizade, sendo doutrinado a seguir normas que sequer entendia o motivo de existirem. Só sabia que estavam ali no caderninho e que devia obedecê-las. Outra delas estabelecia que Will não devia chamar atenção pra si, ocultando suas habilidades extraordinárias que ele mesmo pouco conhecia... Até que um dia, muito sem querer, realiza um feito inédito e gabarita uma prova importante em sua escola. É aí que a aventura começa, e por aventura leia-se perseguição, porque ao fechar a prova, todas as atenções (desse mundo e do outro) focaram no garoto. Will começa a ter em seu encalço criaturas estranhas e homens a quem chama de Boinas Pretas, além de perder o seu alicerce por um tempo (os pais). Com a ajuda de um cara estranho que parece desconhecer as leis da física e um taxista hispânico, ele consegue chegar vivo no Centro de Aprendizagem Interdisciplinar, uma escola “secreta” e conceituada que se interessou no garoto, dando-lhe uma bolsa integral, quando soube da nota que tirou na prova. Fugindo de uma perseguição e ainda sem certeza de que quer estar no Centro, Will acaba descobrindo que ir até aquele lugar talvez tenha sido um erro, porque é lá que reside o perigo maior.

A narração de Mark Frost é cativante. Não sei dizer exatamente o que há de especial nela, mas me senti acolhida virando aquelas páginas. Os capítulos terminam em pontos estratégicos que forçam você a continuar, não é aquele fim brusco para respeitar o limite padrão de páginas por capítulo. Os personagens têm a profundidade que é comum ao gênero, nada de especial. Há espaço para a menina bonita e gentil que arrebata corações, a menina bonita e extremamente sedutora, o fortão piadista que proporciona alívio cômico, o nerd que alterna entre o otimismo e o pessimismo, o herói que vive enfrentando dilemas morais e o grupinho de “vilões” adolescentes cujo destaque aparece só em dois deles enquanto o resto figura como meros coadjuvantes. A trama é interessante e bem cadenciada, mas como eu disse mais acima, não há nada de especial nesse livro – exceto, talvez, a narrativa do autor. Porque veja bem: se você avalia uma obra sendo racional e chega à conclusão de que ela não traz nem uma inovação, mas mesmo assim ainda a acha fascinante, a “culpa” disso só pode ser da narrativa do autor. Correto?
Uma coisa interessante nesse livro é você comparar o momento em que Will chega no Centro e o momento em que “retorna” do conflito final. Ele se encaminha, nas duas ocasiões, para o mesmo lugar dentro do campus. Então você compara as reações dele nessas situações diferentes e percebe que esse foi o modo que Frost encontrou de dizer: “o Will já não é o mesmo, percebe? Ele amadureceu, essa aqui é a minha pista para que você entenda”. Eu achei isso sensacional. Quando você terminar a leitura, saberá do que estou falando. Corre aqui para dizer se não concorda comigo.

Em resumo: A Profecia do Paladino é uma obra fantástica infanto-juvenil que segue os moldes do gênero e não traz muitas inovações, mas tem uma narrativa cativante e capítulos se encerrando em momentos estratégicos que deixam você ansiando pela próxima página. O worldbuilding sem dúvidas foi bem trabalhado, ficando encarregado ao Dave, um improvável aliado do protagonista, as melhores apresentações nesse aspecto. Há referência direta a fatos históricos e uma reavaliação do mundo em que vivemos encaixando as criaturas do Nunca-Foi, que habitaram a Terra muito antes de nós mas entraram em conflito com a Hierarquia (uma ordem de anjos, pelo que entendi) e foram banidos desta realidade. A ação permeia o livro da primeira à última página. Will West, o protagonista, está envolvido até o último fio de cabelo numa profecia da qual mal tem conhecimento – mas que seus pais sempre souberam, por isso regiam a vida do filho através de inúmeras regras e mudanças de cidade esporádicas. Os personagens são bem construídos de modo geral e a gente percebe que o grupo principal amadurece conforme as provações que enfrenta: o passado os atormenta, mas a perspectiva do futuro atual ainda é o pior pesadelo.
Mergulhe de cabeça. Ou, melhor ainda, corra – sem esquecer de passar pelo buraco no antigo carvalho branco na floresta que circunda o campus. Há muitas leituras das quais a gente se arrepende na vida, mas essa com certeza não será uma delas.

Quem disse que clichês não podem ser bons?


Não era o que acontecia a todos, mais cedo ou mais tarde, uma vez que tivessem sido obrigados a encarar a verdade, qualquer que fosse a forma sob a qual ela se disfarçasse? Nós nascemos. Nós morremos. Nesse meio-tempo fazemos o melhor que podemos com o que nos é dado e amamos as pessoas que nos são mais caras.


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