Resenha || Prince of Thorns de Mark Lawrence

Postado por - sábado, setembro 24, 2016



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  Título da Série: Trilogia dos Espinhos
  Título do Livro: Prince of Thorns
  Autor: Mark Lawrence
  Editora/Tradução: DarkSide Books/Antônio Tibau
  Páginas: 360
  Ano de Publicação: 2013
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  Livro cedido em parceria com a editora.
  

Sinopse Ainda criança, o príncipe Honório Jorg Ancrath testemunhou o brutal assassinato da Rainha mãe e de o seu irmão caçula, William. Jorg não conseguiu defender sua família, nem tampouco fugir do horror. Jogado à sorte num arbusto de roseira-brava, ele permaneceu imobilizado pelos espinhos que rasgavam profundamente sua pele, e sua alma. O príncipe dos espinhos se vê, então, obrigado a amadurecer para saciar o seu desejo de vingança e poder. Vagando pelas estradas do Império Destruído, Jorg Ancrath lidera uma irmandade de assassinos, e sua única intenção é vencer o jogo. O jogo que os espinhos lhe ensinaram.

Prince of Thorns é o primeiro livro da Trilogia dos Espinhos, que já foi resenhada no Me Livrando pelo Rafa Moraes (aqui, aqui e aqui). A obra do escritor Mark Lawrence se dedica a mostrar a trajetória do protagonista, príncipe Honório Jorg de Ancrath, rumo ao maior de seus objetivos: tornar-se rei (e, mais tarde, imperador).

Se tem uma coisa que me chamou atenção em torno da obra de Lawrence foi exatamente o burburinho dos leitores. Se você parar para conversar com pessoas que já leram a trilogia (ou apenas parte dela), não há qualquer unanimidade a respeito de gostarem ou não do egoísta e sociopata príncipe Jorg. Eu particularmente gostei, para ser sincera, porque ele é humano. Algumas de suas atitudes foram no mínimo reprováveis, pois a pior parte do nosso ser, que está presente em todos nós, é aquela que o domina. Ainda assim, acredito que Jorg seja um dos únicos personagens que li recentemente e que mais se aproxima da nossa realidade. É, em resumo, o personagem de fantasia menos fantástico – isso em todos os sentidos que você puder imaginar.
Enfim, seja para o bem ou para o mal, em meio a tantos livros de fantasia medieval que ganharam espaço nos últimos tempos, a Trilogia dos Espinhos teve grande destaque. Isso é inegável.

Quando chegasse aos quinze, já seria rei.

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O livro é narrado em primeira pessoa, o que significa que você obrigatoriamente estabelece uma conexão com o personagem. Com algumas pessoas não funcionou, já que Jorg tem uma personalidade pouco afável e comete atrocidades em nome do poder, da vingança, do orgulho e do simples prazer. Até que tem motivo: sua infância foi difícil após presenciar sua mãe e irmão, que foram os únicos que amou em algum momento da vida, serem assassinados de forma impiedosa e cruel. Ele foi obrigado a assisti-los morrer, escondido e impossibilitado de se mexer no abraço de uma moita de roseira brava. Os espinhos entraram em sua pele, perfurando-o, mas a dor nem de longe se equiparava àquela que consumiu seu coração por completo, deixando para trás apenas trevas e sede de vingança. Como se não fosse o suficiente, ainda teve de assistir o pai reagir a tudo isso de forma pacífica, em favor da diplomacia com o Conde Renar, o responsável pelos assassinatos. Não é algo muito fácil para um adulto compreender, imagine uma criança.
“Por muitíssimo tempo, não estudei nada além da vingança. Construí minha primeira câmara de torturas nos recantos escuros da imaginação. Deitado sobre lençóis de sangue na Sala de Cura, descobri portas dentro de minha cabeça que eu não havia encontrado antes, portas que até mesmo uma criança de nove anos sabe que não devem ser abertas. Portas que nunca se fecharam novamente. (...) Eu escancarei essas portas.” p. 35

Quando conhecemos Jorg, ele está aterrorizando as cidades do Império Destruído com um grupo dos bandidos da pior espécie, que fazem os criminosos da Patrulha da Noite parecerem criancinhas inocentes. Apesar de ser herdeiro legítimo do Reino de Ancrath, Jorg abandonou a “boa vida”, libertou os prisioneiros do calabouço do pai aos dez anos de idade, e desde então pegou a estrada. Aos quatorze, roubo, estupro, tortura e assassinato fazem parte de sua rotina. Ele encara (e comete) cada uma das atrocidades de modo tão automático que elas nem lhe dão mais prazer. Podemos dizer que ele, aos poucos, está deixando de ver sentido na vida.
Então, anos após ter deixado seu castelo para trás, Jorg é atraído de volta aos arredores de seu antigo lar. Acaba descobrindo que desde o momento em que fugiu foi manipulado e desviado propositalmente de seu verdadeiro objetivo: tirar a vida de Conde Renar. Magia antiga e muitas trevas estão envoltas nisso – entretanto, agora há escuridão no coração de Jorg também. É um embate para saber qual abismo engolirá ao outro primeiro.

“(...) Ele havia semeado algumas dúvidas em mim. Eu havia me convencido de que só deixara o Conde Renar de lado como um ato de força, um sacrifício em favor da vontade ferrenha que preciso ter para ganhar o jogo dos tronos. Mas às vezes – agora, por exemplo – eu não acreditava nisso.” p. 195

Os personagens secundários que aparecem na trama não são muito desenvolvidos, uma vez que só somos apresentados à visão que Jorg tem deles (e ele não pensa muito em outras coisas além de si e sua vingança). O que sabemos é que o príncipe conquistou o respeito de cada um e os considera como uma família, sendo o patriarca desta. Não hesita em puni-los com a morte e sabe que não pode confiar neles – uma característica, aliás, que admira. Você não quer ter entre uma irmandade homicida alguém confiável, bonzinho e de bom coração, né?
“Como líder, você tem certas responsabilidades. Como a responsabilidade de não matar muitos dos seus homens. Caso contrário, em quem você vai mandar?” p. 19

Sobre o universo em si, os irmãos não param no meio de um massacre ou uma série de violações para conversar sobre como ele funciona. Jorg está mais preocupado com vingança e poder para divagar o modo como o Império Destruído surgiu. Entretanto, se você ler atentamente acabará por pescar algumas pistas: parece um cenário pós-apocalíptico em que a humanidade, em algum momento, regrediu à uma época semelhante à Idade das Trevas, entretanto com presença de alguns elementos mais “tecnológicos” (que são referidos o tempo todo como sendo herança dos Construtores). Tenho esperança de que descubra mais nos próximos volumes.

A narração de Mark Lawrence, assumindo a voz de Jorg, é simples e direta. O garoto não é muito de fazer rodeios. A partir do momento em que sua mente clareia e ele foca em seu principal objetivo, é isso e ponto final. Então a Guerra Centenária que está ocorrendo? Isso é só mais um jogo. Um jogo que ele irá vencer. E se tornará rei antes dos quinze anos. Sem enrolações.
“Os espinhos me ensinaram o jogo. Fizeram-me entender o que todos esses homens sérios e carrancudos que lutaram na Guerra Centenária ainda precisam aprender. Você só pode vencer o jogo quando entende que se trata de um jogo. Deixe um homem jogar xadrez e diga a ele que todos os peões são seus amigos. Diga que ambos os bispos são santos. Faça-o lembrar de dias felizes à sombra das torres. Deixe-o amar sua rainha. Veja-o perder tudo.” p. 33

A personalidade de Jorg, aliás, é fascinante. Lawrence trabalhou muito nela, disso não há dúvidas. Se por um lado a narrativa em primeira pessoa nos impediu de aprofundar em personagens que não sejam o príncipe, por outro o autor soube muito bem compensar isso ao construir Jorg com muita profundidade. A sociopatia, a dissimulação, o senso de justiça, a sede de poder... Tudo é crível demais. Ele é charmoso, tem uma oratória magnífica e um poder de convencimento que fariam você concordar com ele em três tempos – tudo isso bem comum em sociopatas, aliás. Jorg não se importa com o mundo, não se importa com você (exceto se estiver em seu caminho). Podem existir alguns personagens rasos no livro, mas Jorg com certeza não é um deles. 
Aí está um livro que divide opiniões, mas a minha, em resumo, é: fantástico. Tem seus defeitos, mas também tem os acertos. Leia e descubra de qual time você faz parte: os que apreciaram a obra, ou os que não a suportaram por não conseguirem "engolir" Honório Jorg de Ancrath.


“Este Jorg, o Príncipe Jorg, ele tem um quê de insano. Um inimigo da razão, quem sabe um pouco apaixonado pela morte?” p. 247


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