Taverna || Um Conto No Silêncio

Postado por - quarta-feira, outubro 26, 2016


Isabelle parou no meio da sala e deu uma boa olhada ao seu redor. Não cansava de contemplar seu novo apartamento: bem localizado, conservado e com um ótimo aluguel para os padrões universitários. Respirou fundo e percebeu o silêncio que pairava sobre si, bem diferente da noite anterior com a festinha de inauguração; lembrou-se também de que não gostava da quietude, sempre sentia uma perturbação interior, algo inexplicável que a deixava mal. Pegou-se pensando em suas amigas republicanas que voltaram para suas famílias naquele fim de semana. A solidão a incomodava, sentia-se impotente e indefesa. Naquele momento, Isabelle disse a si mesma que havia ficado na cidade para ler os textos e dar uma adiantada no TCC e não para sentir-se uma criança medrosa, afinal já tinha seus 23 anos e não deixaria que tolices atrapalhassem seus planos.

O cansaço tomou conta de seu corpo. Isso era bom, dormiria rápido. Foi até o banheiro, tomou um banho, escovou os dentes e colocou seu pijama. Antes de ir para o quarto deu uma última verificada na tranca da porta, viu que estava tudo certo e foi dormir. Assim que deitou sua mente focalizou no silêncio e solidão, seu coração acelerou e sentiu transpirar as palmas de suas mãos. Lembrou-se do Marco e da ótima noite que passaram juntos, poderia ligar para o rapaz e convidá-lo a passar aquela noite com ela, espantaria seus medos e conseguiria diversão. Pegou o celular, mas não ligou, precisava superar aquilo sozinha, provar para si mesma que havia crescido. Resolveu pensar em seus momentos com Marco, recordou a conversa da noite anterior, quando estavam todos na sala bebendo, Marco contou-lhes sobre a cidade de São Ciprião, era um Umbral, um lugar onde as pessoas que não souberam aproveitar sua passagem na terra ficavam presas, espíritos em constante dor e sofrimento. Isabelle sentiu um frio repentino e um arrepio em seu corpo, encolheu-se em sua cama e disse a si mesma que aquilo era apenas uma história sem fundamentos. Mas seus sentidos lhe diziam o contrário, as sombras da noite pareciam ganhar forma, sentia que tinha alguém olhando, escutava alguns barulhos sem saber o que eram ou de onde vinham.

Resolveu acender a luz do corredor e abrir a porta do quarto, um pouco de luminosidade ajudaria a espantar os temores noturnos. Já que estava de pé resolveu ir até o banheiro lavar o rosto. Ligou a torneira, fechou a mão em concha e a encheu de água, abaixou e jogou o líquido no rosto, levantou a cabeça e abriu os olhos, viu sua imagem no espelho e atrás de si, um vulto. Virou abruptamente e não viu nada, outra olhada no espelho e apenas seu reflexo se enquadrava dentro dele. Isabelle concluiu que ainda não estava pronta para enfrentar seus medos de infância, correu para o quarto pegou seu celular decidida a ligar para o Marco, enquanto escutava os tons da chamada seus olhos encheram-se de lágrimas. Alguém do outro lado da linha atendeu a ligação, chamou por Marco, mas não obteve resposta, primeiro escutou um chiado forte, depois algo que parecia gritos ao fundo, uma voz estranha em um idioma desconhecido, então se fez o silêncio. Isabelle ficou congelada, não conseguia falar e nem desligar o celular, do outro lado uma voz sussurrada disse “estamos indo, venha para nós”.

Pânico, desespero e agonia, barulhos ao longo do apartamento, coisas caindo, a lâmpada do corredor estourando extinguindo a única fonte de luz, passos. Isabelle reuniu suas forças e saiu correndo pelo corredor, pisou descalça em um caco de vidro, cortando profundamente seu calcanhar, arrastou-se, ficou de pé, passou pela sala e viu alguns objetos jogados ao chão. Gritou por ajuda, todos os apartamentos estavam alugados, alguém teria que vir em seu socorro. Passou pela sala e entrou no corredor que a levaria até a saída, chegou até a porta, a chave não estava na fechadura, provavelmente estaria na sua escrivaninha, no seu quarto. Isabelle gritou desesperadamente dessa vez, batia na porta, mas um vento gelado e uma sensação ruim a fez parar, olhou para trás e no final do corredor onde iniciava a sala viu uma figura parada, uma mulher de meia idade, usando um vestido preto sujo, pele suja, ela não tinha olhos, eram dois buracos horripilantes. A mulher apenas disse “Venha comigo”.

Isabelle fechou os olhos e respirou fundo, disse a si mesma que aquilo era um sonho. Sentiu que estava sonhando, na manhã seguinte daria risada, contaria para suas amigas sobre o pesadelo e se divertiria com a cara de assustada delas. Ainda de olhos fechados deu um passo adiante, sentiu uma dor aguda no calcanhar, lembrou-se do corte, da porta fechada, da mulher, lembrou que era real.

Abriu os olhos e a mulher não estava mais no final do corredor, sua perna tremeu e o sangue embaixo de seus pés a fez escorregar, ficou deitada sentindo o chão frio e pela primeira vez em 10 anos, rezou. Reuniu as forças que lhe restavam e levantou, apoiou-se na parede para não cair outra vez e com passos incertos foi em direção à sala. Os únicos sons vinham de seu peito e de sua respiração, podia sentir um cheiro diferente no ar, não sabia se vinha da mulher ou se era fruto de seu próprio medo. Pensou em gritar, mas calou-se e continuou em frente. Pensou em retornar para a porta e bater nela até quebra-la, mas controlou-se e seguiu em frente. Pensou em parar e começar a chorar, mas não parou e seguiu em frente. Seguiu em frente até chegar à sala.

A mulher estava parada ao lado da janela, “venha comigo”, ela disse. O medo tomou conta do corpo de Isabelle, que caiu tremendo no chão, fixou seu olhar na direção da janela viu que a mulher se movia em sua direção. Ela flutuava a poucos centímetros do chão, lenta e desordenada. “Venha comigo”. Isabelle, sabia que devia gritar, mas a voz não saia. A mulher se aproximava: “Venha comigo”. A última esperança de Isabelle seria um grito capaz de acordar um milagre. “Venha comigo”. A voz estava quase saindo. “Venha comigo”. O grito veio alto, forte, desesperador e capaz de ser ouvido no prédio inteiro.

— SOCORROOOOOOOOOOOOOO. 

Os próximos segundos foram de silêncio. Isabelle foi tomada por uma súbita esperança, com seus ouvidos buscou algum som milagroso fora do seu apartamento, uma batida na sua porta, especulação dos vizinhos curiosos, sirenes. Levantou-se, a mulher estava parada em sua frente, o frio da noite adormecia suas dores e o desespero dava lugar à calma. Isabelle olhou fixamente para os buracos oculares da mulher, lembrou-se da morte do pai e um sentimento de tristeza lhe tomou conta, lembrou-se das reprovações em concursos e vagas de estágio e uma sensação de fracasso lhe tomou conta, lembrou-se das desilusões amorosas e um vazio lhe tomou conta, lembrou-se que sua vida não fazia mais sentido.

Venha comigo”, a mulher sussurrava em seu ouvido. Isabelle, ergueu a cabeça e vislumbrou seu milagre, viu o caminho para sair daquele pesadelo. Sua decisão fez com que sua dor física desaparecesse, fechou os punhos e correu, no momento certo pulou contra seu alvo conseguindo a força necessária para quebrar o vidro. Primeiro sentiu sua pele sendo cortada e o gosto de sangue em sua boca. Depois veio uma brisa de alivio e uma sensação de flutuar entre as nuvens. Por último veio a dormência e a escuridão ao cair nos braços da velha senhora.

Ao amanhecer o corpo de Isabelle estava quase irreconhecível na calçada, a polícia tentava descobrir o que acontecera durante a madrugada. Os vizinhos não escutaram barulho algum durante a noite e o apartamento não apresentava sinais de invasão. Pelo lado de dentro, a polícia encontrou uma lâmpada quebrada, a janela pela qual Isabelle pulou estilhaçada e arranhões na porta de saída com algumas marcas de sangue em volta. Caso fácil, concluíram os detetives. “Suicídio”, eles escreveram em seus cadernos de anotações.




Este conto foi escrito pelo nosso colaborador, Alex Almeida da Silva.

Você também pode gostar de:

0 comentários