Especial || 4 momentos em que Scott Lynch esqueceu que seus leitores têm sentimentos

Postado por - quarta-feira, novembro 30, 2016


Recentemente, após muita insistência, consegui ler As Mentiras de Locke Lamora. Mas vá com calma: isso não quer dizer que a obra é terrível, ou que a escrita me fez sofrer. Aparentemente esse é o meu jeito de tratar meus futuros autores favoritos: eu tento lê-los, desisto duas ou três vezes, até que por fim resolvo ir até o fim e viro a última página vertendo mais lágrimas do que seria humanamente possível.
Aconteceu com O Nome do Vento, aconteceu com A Guerra dos Tronos e agora também aconteceu com As Mentiras de Locke Lamora. Atentando ao fato de que eu perdi o livro duas vezes – sim, foram duas, mas eu mencionei apenas a primeira vez aos meus amigos leitores e foi o suficiente para ser zoada até hoje por isso. Então, amiguinhos, acabo de dar material para mais zoeira. Porque sim, eu perdi o livro duas vezes, o que nunca antes havia acontecido. Culpa de Calo e Galdo Sanza, em primeiro plano, mas tenho certeza que também tem dedo do Treze Sem Nome nessa história.
Enfim. Scott Lynch escreveu As Mentiras de Locke Lamora em 2006, mas o lançamento no Brasil ocorreu apenas em 2014 através da Editora Arqueiro. Não à toa foi obra finalista do World Fantasy Award, e Lynch foi nomeado ao Prêmio John W. Campbell para Melhor Escritor Estreante. Ele possui uma escrita dissimulada nos momentos certos e repleta de sentimentos quando oportuno, embora ainda acredite piamente que ele não guarde nenhuma emoção dentro daquele coração – se você leu a obra, concordará comigo. Foi recomendado tanto por Rothfuss quanto por Martin, o que quer dizer muita coisa nesse segundo caso, pois ambos (Martin e Lynch) são assassinos insanos e impiedosos.
Certo. Agora me deixe explicar a você o porquê da minha convicção quanto à inexistência de um coração que palpita dentro desse autor doravante denominado Scott Lynch (O Desgraçado, em alcunha que eu mesma inventei). Ah, contém spoilers. MUITOS SPOILERS. Você foi avisado. 


Arte de Kuro-art.
A morte de Nazca BarsaviNazca Barsavi era a única filha do sexo feminino de Capa Barsavi, o homem responsável por todo o submundo de crimes de Camorr, lugar onde nossa história está situada. Cada gangue e larápio que circulava pelas ruas da cidade respondia ao seu comando. Locke não era apenas amigo de Nazca, mas também foi o seu primeiro pezon (algo como servo). De criança obstinada transformou-se em mulher resoluta, mais adequada a suceder o pai como Capa do que os irmãos, não fosse o fato de ser mulher...
E teve uma das mortes mais humilhantes.
Veja bem, eu não acho que tenha visto o suficiente dela para ficar muito abalada com sua morte. Mas não foi isso que chocou, e sim o modo como foi feito, por quem foi feito: pelo Rei Cinza, antagonista desta história, que se consolidou no submundo de Camorr como uma figura lendária e envolta em misticismo. Seu primeiro passo foi matar os líderes das gangues da cidade subordinados ao Capa Barsavi, mas seu golpe final para provocar o homem foi justamente o assassinato da única filha deste.
Porém ele não apenas a matou. Ele a devolveu “lavada”: num barril fechado e cheio até a borda de urina de cavalo. O que causou sua morte pode até ter sido a picada do falcão-lacrau do Mago-Servidor que estava serviço do Rei Cinza, mas o significado de como foi devolvida foi o que impactou. A real razão de seu assassinato e provocação ao Barsavi aparece depois e demonstra o nível de perversidade do Rei Cinza. Talvez Joffrey Baratheon, em seus dias mais insanos, tivesse alguma ideia parecida só por diversão.
– Olhe só o que aquele filho da mãe fez. Ela era a memória viva da mãe. Minha única filha. Eu preferia estar morto a ver isto. – Lágrimas começaram a rolar pelas faces do velho. – Ela foi... lavada. (...) Não apenas morta, mas afogada. Afogada em mijo de cavalo.”



Capa Barsavi com Locke Lamora e Nazca Barsavi ainda crianças. Arte por qess-sie.
A represália ao "Rei Cinza". Claro que Capa Barsavi não podia ficar inerte diante da crueldade ocorrida com sua filha. Então aparentemente concordou com a proposta do Rei Cinza – que afirmara em uma carta, enviada junto com o cadáver de Nazca, que aquela era uma espécie de convite para que se “conhecessem” pessoalmente e que o assassinato covarde fora a única forma que encontrara de atrair sua atenção e garantir que ele apareceria ao encontro. Dito e feito, Barsavi resolveu atender ao seu convite. A diferença era que o desgraçado do Rei Cinza já havia combinado anteriormente com Locke Lamora, obrigando o Vigarista a comparecer em seu lugar. Ou seja, Barsavi teria sua vingança – mas não contra quem pensava.
À essa altura do livro, eu já estava completamente afeiçoada a Locke. Foi com muita dor no coração que li a desgraça que ele viveu. A agonia que senti nesse momento só é comparável a um trecho li um tempo atrás, em que Kvothe vive uma tragédia familiar ainda criança em O Nome do Vento, também da Editora Arqueiro. Presenciar a desgraça acometendo as vidas desses dois personagens, que aprendi e gostei muito de amar, foi como ter uma espada enfiada no meu coração.
“– Vejam só o choro do Rei Cinza – sussurrou Barsavi. – Vejam só os soluços do Rei Cinza. Visão que irei guardar com carinho até a última hora do dia da minha morte (...) Nazca por acaso soluçou? Por acaso chorou quando você a matou? Não sei por quê, mas acho que não. (...) Ele vai ter o mesmo destino de Nazca: vai morrer como ela morreu, só que pelas minhas mãos!
Barsavi segurou Locke pelos cabelos e inclinou seu rosto em direção ao barril. Por um instante passageiro e irracional, Locke sentiu-se grato por não ter mais nada no estômago para vomitar. A ânsia causou espasmos de dor nos já doloridos músculos de sua barriga.

– (...) Com uma pequena diferença, seu filho da puta. No seu caso não vai haver veneno. Nenhuma saída rápida antes de eu jogar você lá dentro. Vai poder sentir o gosto o tempo todo. O tempo todo em que estiver se afogando.”

É. Então basicamente Rei Cinza pensou desde o início em matar Nazca, enfurecer Capa Barsavi, mandar Locke em seu lugar, para que então Barsavi pudesse assassiná-lo pensando que o Vigarista era o próprio Rei Cinza. Um modo bem eficaz de eliminar a única ameaça séria aos seus planos, ao mesmo tempo em que não teria mais o submundo de Camorr atrás de si, já que todos pensariam que estava morto. Cruel o suficiente, não?
Não. Não foi o suficiente para o Rei Cinza.



Os gêmeos Sanza e Pulga. Arte por Fictograph.
A morte de Calo, Galdo e Pulga. Essa aqui foi para acabar de vez com meu reservatório de lágrimas. Quase matar Locke e colocá-lo numa situação em que ele só não morreu por ser o protagonista da história foi coisa pouca para o Rei Cinza. Ele quis ir mais além. Por pura perversidade, porque ele com certeza devia imaginar que os Sanza não representariam tanto perigo sem Locke para comandá-los, ele resolveu matar os gêmeos. 
Foi desumano. Calo e Galdo foram, durante toda a obra, o grande alívio cômico da história. Matá-los só se torna equiparável a matar Rony Weasley logo na metade de A Pedra Filosofal. Eles não foram os personagens principais do livro, mas conquistaram seu lugar no coração de cada leitor – tanto que não vi um único dizer que não gostou deles. Charmosos, fortes, inteligentes e divertidos: o assassinato deles foi um golpe duro para Jean, Locke e Pulga, que de repente se viram desestruturados. O que seria dos Nobres Vigaristas sem os irmãos Sanza? Eu sinto que vou chegar ao fim da saga imaginando cada comentário que eles teriam feito nos livros que ainda lerei.
“Calo e Galdo estavam caídos de costas ao lado da caixa, encarando a semiescuridão. Tinham a garganta aberta de orelha a orelha com dois cortes limpos – dois ferimentos gêmeos idênticos.”

Assassinar Calo e Galdo, entretanto, ainda não tinha surtido o efeito desejado por Lynch, O Maldito. O que ele resolveu fazer? Tirar Pulga da gente. O moleque mais novo dos Nobres Vigaristas, que estava trilhando seu caminho para se tornar de vez um deles, aprendiz cheio de energia, garra e vontade de viver. Uma das partes mais emocionantes foi justamente sua despedida de Locke – o momento em que eu precisei fechar o livro e ver alguns episódios de Pokémon para espairecer, caso contrário desidrataria.
“– Eu sou um Nobre Vigarista – disse Pulga devagar, com raiva. – Ninguém se mete conosco. Ninguém nos derrota. Você vai nos pagar!”

Pulga foi um herói no começo do livro, em seu auxílio no roubo planejado aos Salvara, e na metade também. Quando o capanga do Rei Cinza apareceu nas ruínas da Casa de Perelandro, refúgio dos Nobres Vigaristas, armado com uma balestra destinada a Pulga para em seguida matar Jean, ele não contava com a presença de Locke. Se não fosse tão impulsivo e corajoso, talvez Pulga continuasse vivo. Mas ele não conseguiu se conter e tentou atacar o capanga. Isso lhe rendeu uma flecha no pescoço e uma morte dolorosa.
“– Me perdoe – balbuciou Locke entre as lágrimas. Que os deuses me amaldiçoem, Pulga, isso tudo é culpa minha. Nós poderíamos ter fugido. Deveríamos ter fugido. O meu orgulho... Você, Calo e Galdo... Essa flecha deveria ter sido pra mim.
– O seu orgulho – sussurrou o menino. – É justificado. Nobre... Vigarista. (...)
– É justificado – cuspiu Pulga. O sangue já lhe escorria pelo canto da boca. – Eu não... não sou mais um segundo?   Não sou mais... um aprendiz? Sou um Nobre Vigarista de Verdade?
– Você nunca foi um segundo, Pulga. Nunca foi um aprendiz. – Locke deu um soluço, tentou alisar os cabelos do menino para trás e ficou consternado com a marca de sangue que sua mão deixou na testa pálida. – Seu idiotinha corajoso. Seu vigaristinha idiota e valente. Isso tudo é culpa minha, Pulga, por favor... por favor, diga que é tudo culpa minha.
- Não – murmurou Pulga. – Ai, meus deuses... como dói... dói tanto...
O menino parou de respirar enquanto Locke o segurava. Não falou mais nada.”

Em memória de Pulga. Arte por Kejablank.




Capa Barsavi. Arte por Dejan-Delic.
A morte da família Barsavi. Certo, Vencarlo Barsavi estava longe de ser um homem exemplar – mas até poderia ser considerado assim dentro de seu ofício duvidoso. Eu não posso dizer que me afeiçoei ao personagem, porque sinceramente não me importo muito com ele. Agora o modo com sua família foi dizimada da face de Camorr – isso sim é algo que choca, independentemente da pessoa com a qual está ocorrendo.
O Rei Cinza revelou-se na verdade Capa Raza, irmão gêmeo das Irmãs Berangias, que eram guarda-costas pessoais de Barsavi que há anos conquistaram sua confiança. Os trigêmeos arquitetaram o plano de vingança por vinte anos, sem pressa alguma (inclusive Raza significa Vingança em terim do trono, idioma presente na obra). Como eu comentei anteriormente, Barsavi não foi um homem exemplar e em sua caminhada ao topo acabou pisando em calos de muita gente. Sua omissão, em algum momento dessa subida, ocasionou a morte dos pais e outros irmãos dos trigêmeos. Eles não esqueceram isso e dedicaram o restante de suas vidas a preparar-se para o momento derradeiro em que se vingariam não apenas do homem diretamente responsável pela chacina, mas pelos indiretamente responsáveis também – toda a nobreza de Camorr.
Enfim. Pachero e Anjais, os filhos restantes de Barsavi, foram assassinados de modo impiedoso pelas Irmãs Berangias. Uma delas esmagou a cabeça de Pachero acima da orelha esquerda, enquanto a outra enterrou a ponta de picareta do seu machado na nuca de Anjais. Tudo isso diante de Barsavi e toda a sua corte, em um momento de comemoração à suposta morte do Rei Cinza, enquanto um dos tubarões da coleção particular do (por enquanto único) Capa de Camorr dilacerava o seu braço direito.
O Rei Cinza/Capa Raza deu o “golpe da misericórdia” cravando um punhal no pescoço de Barsavi e assim toda a sua geração encontrou um fim prematuro e doloroso.
É. Após ver o tanto de mal que os Berangias causaram, retifico o que disse no começo deste tópico: eu não ficaria nada triste se esse fosse o modo pelo qual os trigêmeos morressem. Na verdade, ficaria bem feliz. Nem o que Jean faz depois compensou, na minha opinião...


 Então, gente... As Mentiras de Locke Lamora foi uma obra que reuniu mortes que eu só esperava acontecer no terceiro livro, talvez. Chorei, fiquei arrasada e entendi que a tendência desses autores de fantasias e aventuras épicas contemporâneos é sempre colocar mortes mais dolorosas de personagens queridos como modo de tortura psicológica para com os leitores. É super efetivo, viu? Parabéns, Lynch. Você detonou meu coraçãozinho. Poxa, fingia que os Sanza e Pulga morreram. Fazia o Locke pensar que sim. Depois eles apareciam vivos e todo mundo ficava feliz – viu que incrível? Mas não. Você prefere ser influenciado pelo seu coleguinha de escrita, George R. R. Martin. Eu desaprovo totalmente essa conduta. Mas ele...

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Mas e quanto a você, leitor? Qual foi a parte mais devastadora de As Mentiras de Locke Lamora para você? E para o leitor corajoso que leu até aqui mesmo sem ter lido o livro ainda (há pessoas que gostam de spoilers, eu mesma amo), a minha recomendação final é: leia. Mas pratique desde a primeira página o desapego. Não seja como eu, que estou nessa vida há algum tempo e ainda não aprendi que não posso amar personagem algum sem que a possibilidade de ele morrer de modo cruel aumente em cinquenta por cento.

Livros da série: As Mentiras de Locke Lamora || Mares de Sangue || República de Ladrões || The Thorn of Emberlain || The Ministry of Necessity || The Mage and the Master Spy || Inherit the Night.

 


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