Resenha || O que eu aprendi sobre morrer – Confissões do Crematório, de Caitlin Doughty

Postado por - terça-feira, novembro 15, 2016



Confissões do Crematório
  Título do Livro: Confissões do Crematório
  Autor: Caitlin Doughty
  Editora/Tradução: DarkSide Books/Regiane Winarski
  Páginas: 260
  Ano de Publicação: 2016
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Sinopse Ainda jovem, Caitlin conseguiu emprego em um crematório na Califórnia e aprendeu muito mais do que imaginava barbeando cadáveres e preparando corpos para a incineração. A exposição constante à morte mudou completamente sua forma de encarar a vida e a levou a escrever um livro diferente de tudo o que você já leu sobre o assunto. Confissões do Crematório reúne histórias reais do dia-a-dia de uma casa funerária, inúmeras curiosidades e fatos filosóficos, históricos e mitológicos. Tudo, é claro, com uma boa dose de humor. Enquanto varre as cinzas das máquinas de incineração ou explica com o que um crânio em chamas se parece, ela desmistifica a morte para si e para seus leitores. O livro de Caitlin – criadora da websérie Ask a Mortician – levanta a cortina preta que nos separa dos bastidores dos funerais e nos faz refletir sobre a vida e a morte de maneira inteligente, honesta e despretensiosa – exatamente como deve ser. Como a autora ressalta na nota que abre o livro, “a ignorância não é uma bênção, é apenas uma forma profunda de terror”.

Todos nós iremos morrer um diaEssa é, talvez, a única certeza que temos na vida. Não importa o quanto você ame viver, ou o quanto ame alguém e queira que a pessoa esteja ao seu lado para sempre. Isso não irá ocorrer. A morte virá, pura e simplesmente, e essa é uma coisa com a qual todos nós teremos de lidar um dia.
Confissões do Crematório – Lições para toda a vida (Smoke Gets in Your Eyes: And Other Lessons From Crematory no original) vem, em parte, para derrubar todo o tabu que envolve um fato certo e claro: a morte. Se prematura ou não, natural ou violenta, ela sempre estará presente em nossas vidas. Caitlin Doughty tenta mostrar que pensar assim não é pessimismo, e sim encarar a realidade. Se é inevitável, por que temos tanta dificuldade em abordar o assunto? Um tema que à primeira vista parece envolto em morbidez – mas que você logo descobre que é necessário ser abordado.


Recentemente, saindo do Fórum Criminal da minha cidade, me deparei com uma senhorinha precisando de ajuda para descer um lance de escadas porque suas pernas estavam cheias de “astose”. Eu a ajudei, seguindo seus passinhos curtos, e aproveitei aquele tempo para conversar um pouquinho. Ela me contou que recentemente havia perdido a única filha. O acidente que ceifou uma vida jovem, ainda na flor da idade, soa bizarro: descarga elétrica durante o banho. Isso mesmo: a moça morreu no chuveiro elétrico. O mesmo que eu uso, que você que está lendo deve usar em dias frios. Naquele dia, a moça atravessou a porta do banheiro, talvez pensando em sair perfumada e renovada após um dia intenso de trabalho – e provavelmente nunca imaginou que jamais sairia viva. A senhorinha, cujo nome não perguntei, narrou sua história com tanta naturalidade que me senti comovida, talvez por não estar acostumada a ver alguém abordar tema tão delicado, especialmente se é recente, sem delongas. Mas ela está certa, afinal, em reagir de modo tão pacífico. A morte, personagem constante em nossas vidas, não pode ser delegada ao papel de mera vilã de quinta categoria. De certa forma, acredito que deve ser respeitada. Ela chegará um dia para todos nós.


Enfim, esse é o tema central da obra. A morte, o modo como a autora encara esse momento. O fascínio pelo assunto que a levou a trabalhar em um crematório por algum tempo, trabalho que descreve minuciosamente em dezenove capítulos. Todas as reflexões que teve e tem até agora; todas as verdades que ninguém quer contar; as descrições detalhadas do ofício, incluindo como embalsamar corpos e o que ocorre com a gordura humana no forno crematório...

“Olhar diretamente nos olhos da mortalidade não é fácil. Para evitar isso, nós escolhemos continuar vendados, no escuro em relação às realidades da morte. No entanto, a ignorância não é uma benção – é só um tipo mais profundo de pavor.”

Caitlin expõe os bastidores da chamada “indústria da morte” estadunidense, que quer apenas lucrar cada vez mais, sem se preocupar com os sentimentos dos familiares dos mortos que passam por esse momento tão delicado... A autora também faz uma varredura mundo adentro com relação aos costumes e a visão que outros povos possuem sobre a morte, desde a antiguidade até os dias atuais. Além disso, ela criou a “The Order of the Good Death”, cujo site você pode acessar aqui, e que se define como um grupo de profissionais da indústria funeral, acadêmicos e artistas que exploram maneiras de preparar uma cultura 'morte-fóbica' para sua mortalidade inevitável.
O livro é recomendado para todo mundo. Até para você que, ao ler essa resenha, chegou à conclusão de que não quer lê-lo. Afinal, não é uma questão de querer – é uma necessidade. Encarar a leitura de Confissões do Crematório é apenas o primeiro passo que todos temos de dar para ver a morte não como uma vilã, mas como aquela amiga que uma hora ou outra chega, trazendo notícia que não queremos receber, mas que nem por isso deixará de ser real. A morte, afinal de contas, não deve ser temida – o terceiro irmão sempre soube disso. Sentir-se em paz com esta personagem permitirá que você viva uma vida em paz, por mais contraditório que possa soar.


harry potter and the deathly hallows the tale of the three brothers
“(...) Já o Terceiro irmão, a Morte procurou por muitos anos, mas jamais conseguiu encontrá-lo. Somente quando atingiu uma idade avançada, foi que ele despiu a Capa da invisibilidade e deu-a de presente para o seu filho. Ele acolheu a Morte como uma velha amiga e acompanhou-a de bom grado, e como iguais partiram desta vida.” Os Contos de Beedle, o Bardo – O Conto dos Três Irmãos

E você, teme a morte?






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