Resenha || O Último Reino - wyrd bið ful ãræd

Postado por - quinta-feira, janeiro 26, 2017


  Título da Série: As Crônicas Saxônicas
  Título do Livro: O Último Reino (1º livro)
  Autor: Bernard Cornwell
  Editora/Tradução: Record/Alves Calado
  Páginas: 362
  Ano de Publicação: 2012
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Sinopse “O Último Reino é o primeiro romance de uma série que contará a história de Alfredo, o Grande, e seus descendentes. Aqui, Cornwell reconstrói a saga do monarca que livrou o território britânico da fúria dos vikings. Pelos olhos do órfão Uthred, que aos 9 anos se tornou escravo dos guerreiros no norte, surge uma história de lealdades divididas, amor relutante e heroísmo desesperado. Nascido na aristocracia da Nortúmbria no século IX, Uthred é capturado e adotado por um dinamarquês. Nas gélidas planícies do norte, ele aprende o modo de vida viking. No entanto, seu destino está indissoluvelmente ligado a Alfred, rei de Wessex, e às lutas entre ingleses e dinamarqueses e entre cristãos e pagãos.” 
No, no we can't let them take anymore
No we can't let them take anymore
We've the land of the free
Iron Maiden - The Clansman

As Crônicas Saxônicas se passam durante as invasões dinamarquesas aos territórios da Nortúmbria, Mércia, Ânglia Oriental e Wessex, que seriam uma espécie de pré-Inglaterra. O título do livro refere-se justamente ao último reino a ficar de pé – e a influência que os protagonistas têm para que isso aconteça. Abarca toda a primeira fase do amadurecimento de Uhtred, e também mostra as tentativas frustradas de invasão à Wessex, mais especificamente a Batalha de Readingum.
A nossa história começa com Osfert. Criança franzina, filho de um grande senhor – de um earldoman, para ser mais precisa. Começa com Osfert e continua com Uhtred, que embora pareça ser, não é o verdadeiro protagonista da saga. Porque, conforme Bernard Cornwell nos informa em sua Nota História, As Crônicas Saxônicas se dedica a mostrar a jornada de Alfredo, O Grande, e o motivo de ele ter ganhado o merecido título. Utilizando fatos históricos, Cornwell encaixa o pagão e enviesado Uhtred de Bebbanburg, e deixa tudo tão absolutamente crível que você não duvidaria se alguém dissesse que o personagem de fato existiu. Como Rose e Jack em Titanic, sabe? Os dois nunca estiveram ali, mas a história é contada de modo tão convincente que você provavelmente deve ter pensado, em algum momento da sua vida, que realmente existiu aquele casal no meio da tragédia.


Como assim eles não existiram?!

É interessante traçar um paralelo entre Osfert e Uhtred. Ambas são a mesma pessoa, mas ao mesmo tempo não são. Osfert é filho de um earldoman, criado e educado por um padre, que não tinha muitas ambições na vida e defendia o rei da época, em seu coração de criança, pelo simples fato de possuírem o mesmo nome. Mas ainda em Osfert, vislumbramos um pouco do que Uhtred viria a ser, porque mesmo que fosse educado rigidamente dentro do Cristianismo que acabara de se estabelecer entre os saxões, o garoto nutria grande admiração pelos deuses antigos cultuados por seu povo, como Tor/Thor e Woden/Odin, e era com prazer que escutava as estórias narradas por Ealdwulf, o ferreiro, que secretamente se mantinha como pagão.


“Mesmo com nove anos eu entendia que um bom cristão não deveria alardear que fora gerado por um deus pagão, mas também gostava da ideia de ser descendente de um deus, e Ealdwulf costumava me contar histórias de Woden (...) Eu gostava daquelas histórias. Eram melhores do que as da minha madrasta, sobre os milagres de Cuthbert. Parecia que os cristãos viviam se lamuriando, e eu não achava que os seguidores de Woden chorassem muito.”


Comparação entre Santo Cuthbert e Thor. A escolha de Uhtred é compreensível.

Se Osfert era uma criança sem muita liberdade e com o coração reprimido, inclusive sendo constantemente rechaçado pelo próprio pai por não possuir o perfil de um senhor ou mesmo guerreiro, você nunca imaginaria que se tornaria alguém como Uhtred. E tudo isso graças a Ragnar Ravnsson. Eu poderia dizer que Ragnar começou a moldar nosso pretenso protagonista a partir do momento em que o capturou, mas vejo que foi muito antes disso: tudo mudou quando o chefe dinamarquês matou o irmão de Osfert, que se chamava Uhtred, e por consequência Osfert foi batizado novamente e teve o nome trocado para Uhtred, pois era costume de sua família que esse fosse o nome do primogênito. Matando o irmão de Osfert, Ragnar tornou-o Uhtred. Por ter passado a ser o filho mais velho do earldomann de Bebbanburg, Uhtred foi obrigado a acompanhar o pai no ataque nortumbriano aos dinamarqueses de Ragnar, e nesse acontecimento que o garoto foi capturado pelos pagãos.
A liberdade de ser Uhtred nem se compara com a prisão em ser Osfert. Em meio aos dinamarqueses, o garoto caiu nas graças não apenas do mais querido entre os chefes (ou jarls), mas encontrou tudo aquilo que poderia sonhar: sentia-se amado e parte de uma família, era incentivado à violência e cresceu em meio a um ambiente que o forjou para que se tornasse um homem de verdade, um dinamarquês saxão, por assim dizer. Pôde cultuar os deuses nórdicos, conforme seu coração infantil sempre ansiou, e assim se manteve por toda a sua vida. Aprendeu a lutar com espadas, a encarar os próprios medos, e foi numa briga entre crianças com o filho de um chefe de navios que demonstrou resquícios do que viria a ser futuramente. Obstinado e sem abaixar a cabeça, Uhtred foi criado de modo que não havia outro caminho a trilhar, senão ser um grande guerreiro.
“Portanto eu era escravo de novo. E feliz. Algumas vezes, quando conto minha história, as pessoas perguntam por que não fugi dos pagãos, por que não escapei para o sul, entrando nas terras que os dinamarqueses ainda não dominavam, mas nunca me ocorreu tentar. Eu estava feliz, estava vivo, estava com Ragnar e isso bastava.”




Mas, claro, o destino é inexorável. A vida parecia perfeita demais, até que tudo o que conhecia lhe foi arrancado, restando apenas a companhia de uma amiga e amante – Brida, saxã que também fora capturada e crescera com Uhtred em meio à família do jarl Ragnar. Eu fico pensando que, apesar de triste, as coisas deveriam ter acontecido exatamente daquele modo. Caso contrário, talvez Uhtred tivesse se acomodado no mesmo lugar e não viveria nem metade de todas as aventuras que temos para acompanhar.
Ah, e eu não poderia deixar de mencionar aqui o que move Uhtred: a vingança. Pois quando seu pai morreu, Bebbanburg se tornou sua por direito, sendo ele o primogênito do earldoman. Mas seu tio, Ælfric, roubou a posse da fortaleza para si, e é o desejo de recuperá-la que faz com que Uhtred siga adiante. É como se ele estivesse seguindo um caminho para esse fim, mas um caminho tortuoso, uma espécie de labirinto, cheio de reviravoltas e desgraças que o mantém cada vez mais distante do objetivo. Assim Uhtred leva a vida, e no primeiro livro ainda o vemos bastante cru, de modo que ele age muito mais do que pensa, mas é muito interessante acompanhar todo o processo de amadurecimento do personagem. Você descobre que há uma grande diferença entre ser um guerreiro feroz e um líder de guerreiros lendário.

“Para a frente agora. Para a frente, à carnificina. Cuidado com o homem que ama a batalha. Ravn tinha me dito que só um homem em cada três, ou talvez um em cada quatro, é um guerreiro de verdade. O resto são lutadores relutantes, mas eu aprenderia que só um homem em cada vinte ama a batalha. Esses são os mais perigosos, os mais hábeis, que estripavam as almas e os que deviam ser temidos. Eu era um deles.”

Em O Último Reino, Uhtred ainda está caminhando para se tornar um guerreiro feroz. Aqui ele assume em parte da trama o lado dos dinamarqueses pagãos, mas você acompanhará sua história ao longo dos livros e verá o quanto o destino realmente é inexorável. Embora seja muito senhor de si, Uhtred é facilmente colocado em ardis, de modo que eu não estaria mentindo se dissesse que ele é o que menos controla a própria vida. O paganismo certamente influencia nisso, da mesma forma que o Cristianismo influenciaria, porque Uhtred aceita as coisas com mais facilidade, sempre acreditando que está sendo daquele jeito porque as Norns/Nornas, as fiandeiras sob a Yggdrasil, querem que assim o seja. Ele não luta contra o wyrd (seu destino), mas simplesmente se deixa levar. Isso o torna humano, de modo que sua vida não é um completo fracasso, mas também está longe de ser um sucesso estrondoso. É apenas uma vida e ponto final.



“Ravn me dizia repetidamente que o destino era tudo. O destino governa. As três fiandeiras sentam-se ao pé da árvore da vida e fazem nossa vida. E nós somos seus joguetes, e mesmo achando que fazemos escolhas, todo o nosso destino está no fio das fiandeiras. O destino é tudo, e naquele dia, mesmo eu não sabendo, meu destino foi fiado. Wyrd bið ful ãræd, é impossível impedir o destino.”

Muito interessante, aliás, os momentos em que Uhtred se depara com a realidade. Ele desromantiza pequenas coisas, então você também passa por esse processo. A guerra não é magnífica, os guerreiros não são heróis. Ter ferocidade não é desculpa para crueldade arbitrária em meio à batalha – e aqui falo da crueldade que é para um pagão morrer sem estar segurando uma arma. Ao seu modo, Uhtred é honrado e vê honra em matar um inimigo que lutou com ferocidade. No fim das contas, os lados opostos de um exército são apenas homens que o destino quis que lutassem por senhores diferentes. Poderiam ser homens bebendo numa taverna, poderiam ser homens compartilhando histórias ao redor de uma fogueira, poderiam ser irmãos. Uhtred não os odeia – com poucas exceções – e tudo o que faz é o seu trabalho. Tem de matá-los? Tudo bem. Mas sempre pensa que espera encontrá-los na outra vida, no Valhalla, onde conversarão sobre tudo, inclusive sobre qual foi a falha que possibilitou que Uhtred os matasse... Não é incomum você ver o próprio Uhtred colocando uma espada ou machado às mãos de um inimigo moribundo. Seu maior medo, inclusive, não é a morte, mas a morte desonrada, longe do campo de batalha e com as mãos vazias.

“Quando falam de guerra, os poetas citam a parede de escudos, falam das lanças e flechas voando, da lâmina batendo em escudo, dos heróis que caem e dos espólios vitoriosos, mas eu descobriria que a guerra tem a ver com comida. Alimentar homens e cavalos. Encontrar comida. O exército que come vence. E se você mantém cavalos numa fortaleza, a guerra tem a ver com tirar esterco.” 



Quem é, enfim, Uhtred de Bebbanburg, ora apresentado como Uhtred Ragnarson, desde que Ragnar o reconheceu como filho? Uhtred é o jarl Ragnar. É Ubba, Ivar e Odda Lothbrokson. É o skald Ravn, é Ragnar, Rorik e Thyra Ragnarson, é Brida, Kjartan e – por que não? –, Sven, O Caolho. É Alfredo, Leofric, Ealdwulf, Guthrum, Willibald, até mesmo Beocca e seu tio usurpador Ælfric. Enfim, Uhtred é todos aqueles que admirou e todos aqueles a quem odiou, porque tirou uma lição de cada pessoa que apareceu em sua frente e, assim, forjou a própria personalidade. E, apesar de o tempo todo Uhtred mencionar as três fiandeiras, para mim não houve melhor profetizador do destino do que Ealdwulf, o ferreiro de Bebbanburg que depois acompanhou Uhtred e se estabeleceu entre os dinamarqueses de Ragnar, mas que ainda assim conservou sua lealdade aos saxões: 
“É uma ferramenta, senhor – disse ele. – Apenas uma ferramenta. Algo para tornar seu trabalho mais fácil, e não é melhor do que um martelo. – Em seguida ergueu a lâmina para captar a luz do sol. – E um dia – continuou inclinando-se para mim – o senhor matará dinamarqueses com ela.”


A narração de Bernard Cornwell 
Ah, a narração de Cornwell. Ele descreve com frequência o júbilo da batalha que assume Uhtred, quando o mundo todo fica em câmera lenta e ele sente tudo o que ocorre, cada estocada e cada mandíbula que quebra com o escudo, numa explosão de prazer. Poderia descrever o momento em que lemos Cornwell como o júbilo da leitura, então. A canção do livro, talvez? Porque enquanto eu estava com O Último Reino em mãos, o mundo ao meu redor desacelerava até desvanecer completamente. Eu já não estava aqui, mas sim dentro da narrativa, desviando de casco de cavalos, fugindo de espadas, vendo um dinamarquês com dentes podres gritar em meu rosto, sentindo o bafo de hidromel azedo. A descrição de batalha que Cornwell nos traz é um verdadeiro júbilo. Nesses momentos, o livro abraça você como os guerreiros de paredes de escudos opostas se encontrando – abraços de amantes, como diz Uhtred, em que você não tem muita opção senão manter-se bem próximo ao livro enquanto absorve cada gota da maestria de Bernard Cornwell.




“O júbilo! O júbilo da espada. Eu estava dançando de júbilo, a alegria fervilhando dentro de mim, o júbilo da batalha do qual Ragnar falava com tanta frequência, o júbilo do guerreiro. Se um homem não o conheceu não é homem. Aquela não era uma batalha, não era uma carnificina propriamente dita, apenas uma matança de ladrões, mas foi minha primeira luta e os deuses tinham se movido dentro de mim, tinham dado velocidade ao meu braço e força ao escudo, e quando terminou, e quando dancei no sangue dos mortos, soube que eu era bom. Soube que eu era mais do que bom. Naquele momento poderia ter conquistado o mundo. (...)”


Mas, claro, o autor não se trata apenas de narração. Ele nos apresenta fatos históricos e batalhas que realmente ocorreram, nos coloca diante de personalidades que existiram e marcaram a história inglesa, tudo sob o ponto de vista de Uhtred. Além disso, você aprende sobre costumes dos dinamarqueses, desmitifica muita coisa em relação a eles, e ainda tem aquelas lições mais secundárias: como forjar uma espada, como lutar em uma parede de escudos, porque espadas longas nesse tipo de combate não são ideais, as partes que compõem um navio, aprende sobre a hierarquia tanto entre os pagãos quanto entre os saxões... Além de entender um pouco da formação da Inglaterra, e como era antes de existir a Inglaterra em si. 
Você vê o papel que as mulheres possuíam à época, e se depara com a crueldade de viver em período de guerra. Cenas como estupro, por exemplo, são muito comuns, mas de forma alguma desnecessárias, porque estão ali para retratar fielmente a época. Porém, felizmente as personagens feminas não estão ali apenas para isso: há mulheres com certa importância na trama, como Brida, saxã com alma dinamarquesa, que cresce sendo tão “rebelde” quanto a cultura permite. Thyra, filha de Ragnar, por outro lado, é mais submissa e aceita o seu papel dentro daquele mundo com satisfação, mas fique atenta à personagem. Não existem muitas outras mulheres dignas de nota, para ser sincera, mas isso é esperado levando em consideração a época em que o livro se passa e o momento que os personagens vivem. Mais mulheres aparecerão nos próximos livros, e eu ainda estou no sexto, mas posso dizer que pelo menos uma delas tem extrema importância no desenrolar dos fatos – e será quem você menos espera, acredite em mim.


Como o próprio Cornwell esclarece, a maioria dos fatos narrados no livro se manteve fiel à realidade. A personalidade do Rei Alfredo, por exemplo, foi estabelecida segundo uma série de árduas pesquisas para definir quem o monarca era enquanto governador e enquanto ser humano – embora você dificilmente consiga diferenciar ambas as facetas a partir do momento em que ele assume o poder. O Último Reino, bem como todas as Saxônicas, são uma aula de história à parte que eu adoraria ter lido na época de escola. É tudo aquilo que a gente aprendeu, mas narrado de um modo tão interessante que em menos de um mês eu já li os seis livros que tenho na estante.
Enfim, se há um arrependimento que tenho na vida, é não ter lido As Crônicas Saxônicas antes. Cansei de ver pessoas recomendando O Nome do Vento para fãs de As Crônicas de Gelo e Fogo e acho isso totalmente errado porque as obras têm ritmos muito diferentes e não possuem quase nada em comum. É diferente com as Saxônicas. Se você ama Martin, irá amar Cornwell. O que não encontrará aqui será a fantasia explícita e as tramas políticas do primeiro, mas será compensado com descrições de cenas de batalha que fazem as de Martin parecerem de médias a ruins. Sério. Se você ama Martin, não leia Rothfuss de cara. Leia Cornwell. Mergulhe fundo e não irá se arrepender.
“Ah, mas eu não gosto de livros que não tenham fantasia” – eu também pensava assim, padawan. Leia. Vai por mim. Aliás, lembram da Widowmaker ou Fazedora de Viúvas de Joffrey Baratheon? Ela é homenageada numa passagem de Cornwell, como um leve easter egg:
“– Os homens amam seus navios e lutam por eles. Cada um honra aquilo pelo qual luta. Nós deveríamos enfeitar nossos navios, senhor. – Falei asperamente, pensando que amaríamos mais nossos navios se tivessem feras nas proas e nomes adequados como Derramador de Sangue, Lobo-do-mar ou Fazedor de Viúvas.”


 Sobre o livro: ele é narrado em primeira pessoa e a história é dividida em três partes, além do prólogo. Tem também um mapa e uma seção dedicada aos topônimos, em que Cornwell situa você entre o lugar mencionado no livro e o seu nome/correspondente atual. Possui a Nota Histórica que mencionei no começo da resenha, onde o autor separa a ficção da realidade e explica suas fontes de pesquisa. A edição em si é boa, apesar de a minha ser econômica, mas possui alguns erros de impressão e revisão. Por exemplo, citarei uma coisa que me incomodou no terceiro livro, acho: há diferença entre os personagens Svein e Sven, mas a partir de determinado ponto da história, Svein tem seu nome gravado como o segundo o tempo inteiro. Apenas detalhes, porém fazem diferença.







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