Resenha || Elric de Melniboné - A Traição ao Imperador

Postado por - segunda-feira, fevereiro 20, 2017


Antes de iniciar a resenha, gostaria de deixar aqui registrada minha imensa frustração por não ver tanto a famosa Stormbringer em ação neste livro inaugural da saga de Elric de Melniboné. Feito isso, podemos ir ao que interessa 😜

  Título da Série: Elric de Melniboné
  Título do Livro: A Traição ao Imperador (1º livro)
  Autor: Michael Moorcock
  Editora/Tradução: Generale (Selo da Editora Évora)/Dario Chaves
  Páginas: 182
  Ano de Publicação: 2014
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  Recomendo também: Leitura Mania || Judão

Sinopse “A história de Elric de Melniboné, o imperador albino e feiticeiro, é uma das grandes criações de fantasia moderna. Um fraco e introspectivo escravo de sua espada, Stormbringer, ele é também um herói cujas aventuras e andanças sangrentas levam-no, inevitavelmente, a intervir na guerra entre as forças da lei e do caos. Um clássico do gênero espada e feitiçaria. Neste livro, Elric enfrentará a ameaça ao império de Melniboné e transitará entre o uso da magia e seus princípios morais, que o impedem de tomar algumas decisões. Além disso, sua amada Cymoril encontra-se em perigo, e ele não medirá esforços para salvá-la.” 

Elric de Melniboné é um clássico, isso é fato inegável. A edição que li, do selo Generale – Editora Évora, em muitos aspectos enche os olhos do leitor. Com capa dura, uma folha de guarda com motivos melnibonéanos (pelo menos acredito que sim 😆), e papel amarelado com gramatura 70g, certamente pode ser definido como uma edição de luxo. A arte de capa também é muito bonita, possui verniz localizado e retrata o personagem que intitula a série. Pela sinopse, eu esperava que fosse ficar embasbacada com o livro e a história que ele conta. Também imaginei que ficaria encantada, pois todas as resenhas e opiniões que li colocaram o livro no mais alto pedestal. Logo, assim que comecei a leitura, pensei que estaria encarando uma das melhores leituras da minha vida... Ledo engano – mas isso fica para o final.


Como eu me senti quando vi que todo mundo gostou da obra - até chegar na minha vez de ler.

O primeiro livro da saga de Elric, cujo título é A Traição ao Imperador, narra justamente esse fato. Ele é dividido em três partes, e os capítulos têm nomes curiosos – eles quase dão spoilers do que acontecerá, semelhante à nomeação dos episódios de Dragon Ball, sabem?



“Sua pele tem a cor de um crânio esbranquiçado; e o longo cabelo que escorre abaixo dos ombros é branco como leite. Da cabeça afilada, dois olhos oblíquos observam, rubros e taciturnos, e das mangas largas de seu manto amarelo emergem duas mãos esguias, também da cor de ossos, descansando cada uma em um braço de uma cadeira esculpida em um único e enorme rubi.”



Enfim. Neste primeiro volume temos contato com Elric, o imperador albino e feiticeiro de uma raça aparentemente em decadência. Melniboné é apenas um reflexo do que foi no passado, ao mesmo tempo em que é governada por um nobre mais preocupado em suas introspecções e leituras do que em seguir à risca as tradições e costumes de seu povo. Embora parte dos súditos aceite de modo passivo esse líder visto como fraco, alguns estão inquietos, e isso inclui o primo de Elric e Príncipe dos Dragões, Yyrkoon. Ele está bastante insatisfeito com o modo como o imperador lidera Melniboné, chegando inclusive a culpar o seu governo pela decadência dos melniboneanos. Por outro lado, Cymoril, a irmã de Yyrkoon e amante de Elric, oferece a seu amado todo o apoio que consegue, tentando consolá-lo e fazê-lo entender que é um ótimo governante, porém a seu modo, e que os melniboneanos apenas não estão acostumados ao seu modo de governar.
Aproveitando-se do momento de fraqueza que vive Melniboné, os Reinos Jovens tentam invadir a Ilha do Dragão, pois descobriram um caminho pelo labirinto marítimo que separa o império melniboneano do resto do mundo. Uma guerra acontece, os bárbaros humanos são dominados e o imperador supostamente acaba morto nas águas do labirinto. É aí que o enredo começa, eis que Elric, invocando o Rei Straasha, Senhor de todos os Elementais das Águas, consegue sobreviver àquilo que na realidade foi uma tentativa de assassinato, frustrando a auto-nomeação de Yyrkoon como o mais novo imperador de Melniboné. À semelhança do Rei Alfredo com seu sobrinho, Æthelwold, em As Crônicas Saxônicas, Elric decidiu por muito tempo perdoar as traições e comentários impróprios do primo contra si, acreditando que por ser da família, merecia um tratamento condescendente. Até mesmo quando deveria matá-lo de imediato, ao retornar para Melniboné após o príncipe ter tentado afogá-lo, Elric prefere ordenar que Yyrkoon seja aprisionado na própria torre até o dia seguinte. Claro que o príncipe foge, raptando a irmã e levando consigo mais cem cavaleiros imrryrianos, saindo de Melniboné e buscando refúgio em local desconhecido para Elric por muito tempo.
– Morra, seu demônio de pele pálida! Morra! Você não tem lugar nesta terra! – (...) Elric quase se distraiu por causa dessas palavras. Elas soaram como verdadeiras para ele. Talvez ele realmente não tivesse lugar na terra, talvez por isso Melniboné estivesse lentamente entrando em colapso. Por isso, menos crianças nasciam a cada ano, e até mesmo os dragões não estavam mais reproduzindo.





Apenas quando envolve outra entidade, um Senhor do Caos chamado Aorich, Elric consegue descobrir o local em que Yyrkoon está escondido. Muitos meses se passaram, e durante esse tempo o príncipe treinou um suposto exército para invadir Melniboné e tomar para si o título de Imperador da Ilha do Dragão.


O livro é curto, com menos de 200 páginas. Embora reconheça a importância da obra para a fantasia moderna, confesso que me decepcionei um pouco com a história criada por Michael Moorcock para esse primeiro livro (primeiro em ordem cronológica, mas não de publicação). Talvez seja injusto avaliá-lo depois de ler Bernard Cornwell, mas com certeza senti falta de uma descrição minimamente boa das cenas de batalha, além de achar que o enredo foi linear demais. Nada de plot twists nem revelações escandalosas. É um livro que você pode encarar em dois dias ou numa tarde, caso não tenha mais nada para fazer, e não precisa se preocupar em queimar alguns neurônios para tentar entender o que está acontecendo: ele possui apenas uma trama, sem subtramas escondidas. Acho que o que quero dizer, de modo resumido, é que Moorcock poderia ter sido um tanto mais criativo na trama de A Traição ao Imperador.


Nickelodeon reaction bored spongebob squarepants boring
O Bob resume bem meus momentos de leitura 😕

Se você espera um destaque maior aos dragões e a Stormbringer, irá se decepcionar. A trama política também não foi muito bem arquitetada, sendo bastante lisa, sem ranhuras. Não sei se os próximos livros são diferentes, mas espero que sim. Moorcock certamente é um gênio do gênero, e não à toa influenciou nomes com George Martin e Neil Gaiman, então a esperança de me deparar com um livro superior ainda dentro da saga de Elric é grande.
Não sendo injusta, dedico aqui um parágrafo para falar o quanto Elric foi bem construído, e o quanto é um personagem interessante. Fugindo do lugar-comum aos melniboneanos, conhecidos por serem duros e cruéis, o imperador, frágil de nascença, cresceu lendo e relendo os livros da biblioteca de seu pai, de modo que possui conhecimento teórico de quase tudo que o cerca. Enxerga a vida aristocrática como enfadonha, vendo em Cymoril uma grata válvula de escape à estressante vida de governar Melniboné. Se pudesse, entregaria o trono de bom grado à Yyrkoon no começo do livro, mas ao mesmo tempo respeita rigidamente os costumes no tocante a esse assunto específico. Melniboné em si, ora conhecida como A Ilha do Dragão, é bem interessante e deve ter sido gloriosa em seu passado, mas atualmente está em declínio – não que você consiga ver isso olhando para as orgulhosas estruturas do império. Os Senhores dos Caos são constantemente mencionados durante a obra, embora aquele que apareça efetivamente seja Arioch. Há também os Senhores Elementais, o que me faz acreditar que a saga de Elric possua um panteão curioso e interessante, que certamente deverá ser explorado nos próximos volumes.

“(...) Nosso mundo está envelhecendo. Houve um tempo em que os elementais eram poderosos em sua dimensão, e o povo de Melniboné partilhava desse poder. Mas agora o nosso poder diminui, assim como acontece com o seu. Algo está mudando. Há indícios de que os Senhores dos Mundos Superiores estão novamente tomando interesse em seu mundo. Talvez eles temam que o povo dos Reinos Jovens tenham se esquecido deles. Talvez o povo dos Reinos Jovens ameace trazer uma nova era, onde deuses e seres como eu já não terão mais lugar. Eu suspeito que haja certo mal-estar nas dimensões dos mundos superiores.” 




Minha palavra final é: leia A Traição ao Imperador, só não com muitas expectativas de se deparar com uma obra maravilhosa. Como é tão exaltada por ser clássica e ter inspirado grandes nomes da literatura fantástica contemporânea, eu esperava ler algo que fizesse jus à genialidade de Martin. Certamente, à época em que foi publicado, o livro de Moorcock deve ter abalado as estruturas da sociedade, mas atualmente já possuímos a nosso alcance livros com tramas mais profundas e elaboradas, de modo que acabam por eclipsar a trama deste volume específico. É um livro bom, mas apenas isso.
Um artigo que poderá interessá-los bastante, a propósito, é esse aqui do Whiplash, que conta a influência que a obra de Moorcock teve em bandas de rock e heavy metal.









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