Resenha || O Oceano no Fim do Caminho

Postado por - sexta-feira, fevereiro 24, 2017


  Título do Livro: O Oceano no Fim do Caminho
  Autor: Neil Gaiman
  Editora/Tradução: Intrínseca/Renata Pettengill
  Páginas: 208
  Ano de Publicação: 2013
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Sinopse “Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele, passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos. Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo. Um horror primordial, sem controle, que foi libertado e passou a tomar os sonhos e a realidade das pessoas, inclusive os do menino. Ele sabia que os adultos não conseguiriam — e não deveriam — compreender os eventos que se desdobravam tão perto de casa. Sua família, ingenuamente envolvida e usada na batalha, estava em perigo, e somente o menino era capaz de perceber isso. A responsabilidade inescapável de defender seus entes queridos fez com que ele recorresse à única salvação possível: as três mulheres que moravam no fim do caminho. O lugar onde ele viu seu primeiro oceano.” 

Neil Gaiman certamente ganhou seu espaço no mundo literário com obras de caráter infanto-juvenil e que ainda apresentam um lado mais obscuro.
Em O Oceano no Fim do Caminho, publicado aqui no Brasil pela Intrínseca, Neil Gaiman nos retorna para infância, porém não deixando de lado o tom sombrio presente em suas obras. No livro, o narrador (em torno dos 40 anos de idade) vive uma vida monótona e retorna para sua cidade natal para o enterro de um amigo.
Lá o homem pega seu carro e vai até o fim de uma estrada até chegar na fazenda Hempstock e, ao observar o lago da fazenda, começa a se lembrar de sua infância na qual era um garoto sem muitos amigos que adorava ler seus livros e quadrinhos e tinha uma vida tranquila e normal.
Tudo muda quando seu pai decide alugar um dos quartos da casa para um minerador de opala que certa noite rouba o carro do pai do garoto e comete um suicídio. Tal evento desperta uma força misteriosa, perigosa e sombria que passa a afetar o menino e a todos ao seu redor.
“Como você pode ser feliz nesse mundo? Você tem um buraco no seu coração. Um caminho dentro de você para terras além do mundo que você conhece. Esses caminhos vão te chamar, no decorrer da sua vida. Nunca haverá um segundo no qual você conseguirá esquecê-los, no qual você não estará procurando por algo que não pode ter, algo que você não consegue sequer imaginar direito, e a falta disto irá arruinar o seu sono e o seu dia e a sua vida, até que você feche os olhos pela última vez, até que os seus entes queridos lhe deem veneno e o vendam para anatomia, e ainda assim você morrerá com um buraco dentro de você, e você irá lamentar-se e praguejar por uma vida mal vivida.”



O livro é muito mais do que uma história de um garoto em um mundo fantasioso (e assustador), ele aborda a diferença entre o mundo de uma criança e o mundo de um adulto, fazendo uma crítica sobre como vamos ficando amargurados conforme crescemos, sobre como esquecemos de como é ser uma criança. E ele faz tudo isso sob o ponto de vista de um garoto (cujo o nome não é mencionado), o que talvez seja o ponto chave do livro. É muito fácil se identificar com o personagem, pois acabamos trazendo lembranças e experiências de nossa própria infância.


O livro é curto, com menos de 200 páginas. Embora reconheça a importância da obra para a fantasia moderna, confesso que me decepcionei um pouco com a história criada por Michael Moorcock para esse primeiro livro (primeiro em ordem cronológica, mas não de publicação). Talvez seja injusto avaliá-lo depois de ler Bernard Cornwell, mas com certeza senti falta de uma descrição minimamente boa das cenas de batalha, além de achar que o enredo foi linear demais. Nada de plot twists nem revelações escandalosas. É um livro que você pode encarar em dois dias ou numa tarde, caso não tenha mais nada para fazer, e não precisa se preocupar em queimar alguns neurônios para tentar entender o que está acontecendo: ele possui apenas uma trama, sem subtramas escondidas. Acho que o que quero dizer, de modo resumido, é que Moorcock poderia ter sido um tanto mais criativo na trama de A Traição ao Imperador.
“Existem monstros de todos os formatos e tamanhos. Alguns deles são coisas de que as pessoas têm medo. Alguns são coisas que se parecem com outras das quais as pessoas costumavam ter medo muito tempo atrás. Algumas vezes os monstros são coisas das quais as pessoas deveriam ter medo, mas não tem.” 

O autor brinca com nossa percepção sobre o que é real e o que é imaginação. Em alguns momentos somos levados a acreditar que monstros existem e que o perigo é real. Em alguns momentos, a sensação que dá ao ler o livro é de estar em um pesadelo onde um protagonista inocente e indefeso lida com uma “força” que não compreende e que parece ameaçá-lo toda hora. Outras vezes o monstro é – de fato – real, sendo ele a maldade presente no interior das pessoas.



“Vou dizer uma coisa importante para você. Os adultos também não se parecem com adultos por dentro. Por fora, são grandes e desatenciosos e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, eles parecem com o que sempre foram. Com o que eram quando tinham a sua idade. A verdade é que não existem adultos. Nenhum, no mundo inteirinho.”
Por fim, o livro nos lembra de que não deixamos de ser aquela criança apenas porque crescemos, e que por mais que as coisas estejam ruins e complicadas, se soubermos onde procurar (ou seja, se chegarmos de volta ao nosso “oceano”) encontraremos ela – a nossa criança interior.

“As memórias de infância às vezes são encobertas e obscurecidas pelo que vem depois, como brinquedos antigos esquecidos no fundo do armário abarrotado de um adulto, mas nunca se perdem por completo.”

Fica aqui a recomendação da vez.

 Este post foi escrito por Fabio Otsuka.


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