#RelendoKvothe || Releitura de O Nome do Vento – Parte 1

Postado por - domingo, abril 30, 2017

Hoje é dia de compartilhar as minhas impressões sobre os dez primeiros capítulos lidos de O Nome do Vento. A primeira coisa que eu gostaria de pontuar é que vi muita coisa que deixei passar batida nas leituras anteriores. Ponto para mim! É sempre bom descobrir detalhes nas entrelinhas. Expande nossa visão sobre a obra, especialmente em se tratando de uma que a gente tanto gosta.
Enfim, vamos lá aos comentários. Primeiro farei uma breve análise, e depois os capítulos serão comentados um a um. Preparados?


Uma breve análise
Estes dez primeiros capítulos são provavelmente os mais difíceis para quem nunca teve contato com a saga. Não sei explicar exatamente o motivo, mas aconteceu comigo. Já falei várias vezes que me apaixonar por O Nome do Vento não foi fácil – tentei ler três vezes a obra e sempre desistia quando Kote ainda estava na Marco do Percurso. Curiosamente, várias pessoas já alegaram ter vivenciado o mesmo – enquanto outros chegaram a comentar na página do Me Livrando que não conseguiam avançar na leitura.
Penso eu que o motivo para isso acontecer é que sete dos dez primeiros capítulos são narrados em terceira pessoa. Afinal, Kote ainda não começou a narrar sua história, e vemos tudo acontecendo pelo ponto de vista de um narrador onisciente. Ainda que as coisas abordadas nestes capítulos iniciais sejam interessantes e revelem muito do enredo atual do universo da série, penso que não cativa tanto quanto quando Kote está narrando. Por este motivo talvez eu não tenha conseguido ir adiante na leitura nas primeiras vezes em que coloquei as mãos no livro.
Enfim, esses primeiros capítulos são cruciais para fazer a gente entender como anda a situação dos Quatro Cantos da Civilização. O narrador faz um apanhado geral através do cotidiano que Kote e Bast vivem na Marco do Percurso, escutando as conversas dos poucos frequentadores da pousada, assim como conversando entre si. Além disso, o narrador, por ser onisciente, entra na mente dos dois personagens e acaba revelando o que eles escondem em seu íntimo. Necessário não só para entendermos o presente do universo criado por Patrick Rothfuss, mas também para voltarmos ao passado do que já aconteceu na vida de cada um.
Mas, claro, esses capítulos não se tratam apenas do que mencionei acima. Eles também nos apresentam a figura do Cronista, sua motivação para seguir até a Marco do Percurso e porque Kote decidiu começar a contar a história de sua vida, além de nos introduzir à infância de Kvothe e do primeiro contato que este teve com o que lhe despertou a vontade de nomear o vento.



Prólogo – Silêncio em três partes
A primeira coisa a me chamar atenção no prólogo foi uma observação peculiar do narrador. Quando ele começa a falar do silêncio que rege a Marco do Percurso, ele menciona, logo no segundo parágrafo:

“Se houvesse uma multidão, ou pelo menos um punhado de homens na pousada, eles encheriam o silêncio de conversa e riso, do burburinho e do clamor esperados de uma casa em que se bebe nas horas sombrias da noite. Se houvesse música... Mas não, é claro que não havia música.

Então daqui depreendemos que Kote, que também é Kvothe, que um dia conquistou sua Gaita de Prata na Eólica cantando e tocando (em condições excepcionais) uma das mais difíceis canções existentes, simplesmente abandonou a música e passou a ignorar a sua existência. Concluímos também que nunca houvera música na Marco do Percurso, sendo o motivo óbvio para o narrador. Mas, se você notou bem, em um dos capítulos mais adiante, Kote resolve aventurar-se e cantar – o que quase arruína o seu disfarce. A questão que restou sem resposta, em minha opinião, foi a seguinte: por que Kote abandonou algo que tanto prezava, que era a música, e a retomou naquele momento específico do capítulo mais a seguir? Teria algo a ver com ele, aos poucos, estar abandonando a identidade de Kote, para assumir a original? Há mais sinais para se acreditar que sim – falarei um pouco mais à frente.


Outra coisa a se destacar no prólogo é a frase final.

“Era o som paciente – som de flor colhida – do homem que espera a morte.”


Este, segundo o narrador, é o “som do silêncio” de Kote. Por que ele está aguardando a morte? Foi uma metáfora ou uma afirmação literal? Quando decidido a contar sua história ao Cronista, ele é bem enfático ao dizer que precisará de três dias... Por que três dias? É realmente necessário esse tempo para que conte sua experiência nos pouco mais de vinte anos vividos? Ou ele sabe que tem apenas três dias para, quem sabe, encarar a morte? Porque da afirmação do narrador podemos depreender duas coisas: ou ele está à espera da morte para literalmente morrer, ou está aguardando para enfrentá-la de queixo erguido através de algum personagem (ou personagens) que o esteja perseguindo.
Aliás, você provavelmente deve conhecer a famosa passagem das Portas da Mente. Kote está ali, à espera da morte, e se isso quer dizer que ele já aceitou que quer morrer (o que não é muito difícil de se imaginar, dada a atitude depressiva do personagem), quer dizer que talvez já tenha passado todas as outras portas da mente – a do sono, do esquecimento e da loucura. A morte seria, portanto, a última que precisa ultrapassar para superar sofrimento tão intenso que lhe foi infligido, qualquer que tenha sido este. Peguemos, porém, o último trecho da famosa passagem:

Por último, existe a porta da morte. O último recurso. Nada pode ferir-nos depois de morrermos, ou assim nos disseram.


“Ou assim nos disseram”... Um comentário que nos leva a crer que Kote não está muito certo de que a morte represente o descanso final. Por quê?

Kote x Kvothe

Capítulo 1 – Um lugar para demônios
O primeiro capítulo se inicia com um grupo de companheiros da pequena Nalgures contando uma história enquanto alguns comem, outros bebem e um resmunga. Sentados ao redor de uma mesa, vemos o mais velho dos homens, Cob, contar ao aprendiz de ferreiro (aparentemente o único que não nasceu no vilarejo) estórias sobre os supostos mitos dos Quatro Cantos. No caso, aqui seriam o Chandriano e o Grande Taborlin.
Quando lemos o livro pela primeira vez, obviamente não apreendemos a importância do Chandriano na história. Cob conta ao aprendiz, e por tabela a todos os demais sentados na mesa, sobre um famoso feito do Grande Taborlin, resumindo o mito da figura e destacando três objetos que serão de suma importância quanto à personagem da Auri, a aparecer muito mais adiante:

“Quando acordou, o Grande Taborlin descobriu-se trancado numa torre alta. Tinham levado sua espada e tirado suas ferramentas: chave, moeda e vela, tudo se fora. Mais isso não era o pior, vocês sabem... – Cob fez uma pausa para aumentar o efeito  ...porque as lamparinas da parede emitiam uma chama azul!”

Só no trecho acima, temos os objetos (chave, moeda e vela) que você deve guardar em mente, tão associados ao Grande Taborlin, e um dos sinais da presença do Chandriano, no caso a chama azul. A propósito... Esse tal Chandriano... Eles só podem ser demônios, certo?
Errado.
Não se sabe o que são. Essa discussão, aliás, logo toma conta da mesa de Cob. Seriam demônios, espíritos ou condenados? Segundo um dos homens, Jake, o Chandriano é composto pelas primeiras seis pessoas que recusaram-se a escolher o caminho proposto por Tehlu (divindade máxima desse universo), e por isso foram amaldiçoados por ele, que condenou todos a vagarem eternamente na terra. Cob, porém, tira o crédito dessa hipótese logo em seguida. O quanto ela pode ser real? Não sabemos.
Logo o clima muda na pousada, pois Carter, um amigo dos homens, chega ensanguentado e carregando nos braços algo de formato estranho. Logo ele revela ser uma criatura que o atacou na estrada, e acabou matando sua melhor égua, Nelly. Kote revela meio sem querer o que é aquela criatura – um scrael –, e acaba falando demais quando comenta que não esperava que eles estivessem tão perto. Aqui fica a minha dúvida: seriam os scrael, bem como outras criaturas, o presságio do aparecimento de algum personagem místico em particular? Kote não esperava que eles já estivessem tão próximos... Teria então se assustado por este motivo, e dado os três dias ao Cronista porque, com o surgimento do scrael, tomara consciência de que possuía menos tempo ainda para enfrentar o que está por vir?
A discussão logo rodeia a criatura, e os homens decidem testar se é um demônio ou não. Segundo o ditado, há três coisas que os demônios temem: o ferro frio, o fogo vivo e o santo nome de Deus. A conclusão é a seguinte:

“Kote comprimiu o gusa de ferro na lateral negra da criatura e houve um estalido curto e sorridente, como uma tora de pinho estalando na fogueira. Todos se assustaram, depois se acalmaram, vendo a coisa negra permanecer imóvel. Cob e os outros trocaram sorrisos trêmulos, feito meninos assombrados por uma história de fantasmas. Os sorrisos murcharam quando a sala se encheu do aroma adocicado e acre de flores em putrefação e cabelo queimado.”


E assim chegou-se à conclusão de que se tratava sim de um demônio – embora Kote já soubesse disso, mesmo que na página 20 tenha induzido Bast a acreditar que não era. Uma coisa me pareceu certa: Kote não foi irresponsável ao provar para Cob e seus companheiros que as histórias que eles imaginaram ser apenas fantasia se tratavam de realidade. Acho que ele os chocou de propósito, para que ficassem alertas, inclusive buscando modos de se proteger de acordo com as lendas. Mais um sinal de o hospedeiro sabe que alguma coisa está a caminho e garantiu àqueles homens que se mantivessem protegidos.
Ainda no capítulo 1, vemos pela primeira vez o baú que Kote guarda. Feito de roah, ele é extremamente peculiar e possui uma fechadura que não se pode ver. Acima de tudo, Kote o teme em demasia. Por quê? O que pode existir lá dentro? Essa é uma grande incógnita e merece um post à parte. Só terei teorias mais concretas após reler também O Temor do Sábio.


Por fim, no capítulo 1, após tantos sinais deixados na entrelinha, a situação atual dos Quatro Cantos foi abordada:

“Por isso, ainda era cedo quando a discussão se voltou para assuntos de maior peso. Os homens remoeram os boatos que haviam chegado à cidade, quase todos perturbadores. O Rei Penitente vinha enfrentando dificuldades com os rebeldes em Resavek. Isso causou certa apreensão, mas apenas num sentido geral. Resavek ficava muito longe, e até Cob, o mais experiente deles, teria dificuldade para encontrá-la no mapa.”


Certo, está havendo uma guerra. Mas a transcrição do narrador acima se tratou apenas de um apanhado do que aqueles homens, um tanto ignorantes, conversavam entre si. O que disso tudo podemos tirar como real? Será que eles realmente sabem o que está acontecendo? Os boatos podem ser verdadeiros? Sabemos apenas que sim, uma guerra está ocorrendo. E, aliás, quem é o Rei Penitente? Não sei nem por onde começar a pensar.

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Planta da Pousada Marco do Percurso, localizada em Nalgures.


Capítulo 2 – Um lindo dia
O segundo capítulo nos apresenta ao Cronista, ou Devan Lochees, parente do duque e parte da família Lackless. Apenas isso? Com certeza não. Se há uma coisa que aprendemos lendo A Crônica do Matador do Rei, é que os nomes são de extrema importância. Há muito mais por trás do Cronista do que ele quer nos fazer acreditar.
Aqui, aliás, seria um capítulo absolutamente desnecessário – exceto se fosse a intenção de Rothfuss nos mostrar logo o quão ardiloso e inteligente o Cronista pode ser. Assaltado por ex-soldados, o homem conseguiu ludibriá-los e levá-los a pensar que se deram bem, quando na realidade o Cronista se saiu muito menos prejudicado do que eles julgavam. Além de agradar os homens, restou inteiro e repleto de uma confiança a ponto de pensar, no final, que aquele estava sendo um lindo dia. Quer maior demonstração da esperteza do Cronista do que esse capítulo? Apesar de parecer bobo, Rothfuss não o colocou ali à toa, apenas para aumentar o número de páginas.



Capítulo 3 – Madeira e Palavra
Aqui assumimos que a madeira do título do capítulo seja a do suporte da espada de Kvothe, sendo o suporte feito de roah, mesmo material do baú misterioso citado anteriormente. A palavra, por outro lado, é exatamente o nome da espada: Insensatez. Por que esse nome? Por que ela é tratada com tanta deferência, e ao mesmo tempo tanto temor? Quais feitos pode ter protagonizado? Levando em conta que ela não apareceu em O Nome do Vento, exceto na Marco do Percurso, nem em O Temor do Sábio, só há suposições sobre como Kote a adquiriu, e o motivo de tê-la nomeado assim.
A propósito, destaquemos aqui que Abenthy, que surgirá mais adiante, alertava o tempo todo Kvothe para ter cuidado/atenção com a insensatez. Você dirá que é coincidência, aposto... Mas deixe-me mostrar uma das cartas do baralho oficial de A Crônica do Matador do Rei:

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A carta de Abenthy deixada para Kvothe dizia: "Defenda-se bem na Universidade. Deixe-me orgulhoso. Lembre-se da canção de seu pai. Cuidado com a insensatez." Noutras palavras, temos uma pequena pista da escolha do nome da espada, que foi confirmada através de um material extra da trilogia. Obrigada, Rothfuss.

“(...) Kote permaneceu no bar, deslizando displicentemente as mãos pela madeira e pela palavra. Pouco depois, Bast veio da cozinha e olhou por cima do ombro do mestre.
Houve um logo momento de silêncio, como num tributo aos mortos.



Uma das definições de tributo é a seguinte: expressão ou ato público como mostra de admiração e respeito por alguém; homenagem. O trecho acima deixa bem claro que o silêncio que se seguiu se assemelhava a um tributo, à uma homenagem aos mortos. Disso podemos supor duas coisas: Insensatez tirou a vida de alguém importante para Kote, bem como não vitimou apenas uma pessoa. Paira a dúvida no ar do que deve ter acontecido, pergunta que será respondida no Terceiro Dia.


Ainda neste segundo capítulo, preciso que você lembre dos comentários que fiz a respeito do prólogo. O narrador havia afirmado que é claro que não havia música, como se tal hipótese fosse óbvia, como se existir música na Marco do Percurso fosse impossível. Mas não é que Kote, num dia particularmente agitado da hospedaria, recobrando um pouco do Kvothe que um dia foi, cantou uma cantiga conhecida do povo, Latoeiro curtumeiro, fazendo seus próprios acréscimos?
Tal trecho me deixou o seguinte questionamento: será que Kvothe ter mudado sua identidade para Kote foi muito além da simples troca de nome? Será a mudança ocorreu contra sua vontade e obrigou a deixar para trás todos os traços do Kvothe que um dia foi, talvez por estar tão arrasado que não conseguia mais sê-lo? O que aconteceu para deixar Kote tão diferente, e o que está acontecendo para torná-lo capaz de, aos poucos, retomar seu antigo eu?
Logo essa alegria toda tem fim, pois ao cantar, um dos frequentadores da hospedaria o reconhece como Kvothe e o questiona. Aliás, ele dá uma pista curiosa sobre o futuro dos livros, que se trata do passado de Kvothe:


“Vi o lugar em que você o matou, em Imre. Perto da fonte. Todas as pedras do calçamento ficaram estilhaçadas – disse, franzindo o cenho e se concentrando nessa palavra. – Estilhaçadas. Dizem que ninguém é capaz de remendá-las.

Kvothe matou alguém, e essa pessoa foi do sexo masculino, perto de uma fonte em Imre. Recordou de onde possa ser? Sim, muito provavelmente a fonte em frente da Eólica, que se localiza no centro do coração de Imre. Quem ele teria matado? Por quê? O que o deixou com tanta raiva, tanto descontrole emocional sobre seus poderes, a ponto de estilhaçar o calçamento?


Outra coisa que eu gostaria de destacar é um detalhe na página 36. Ao se despir, o narrador comenta sobre a luz do fogo desenhando as linhas finas, cicatrizes, nas costas e braços de Kote. Algumas nós sabemos como ele adquiriu – porém ali não há apenas cicatrizes velhas, mas novas também. Como elas foram adquiridas? O quanto são novas? Afinal, Kote não está em Nalgures há muito tempo – talvez não esteja ali nem há um ano. As cicatrizes são anteriores ao estabelecimento de Kote na cidade, ou ele as ganhou após ter chegado ali? Por que as tem?

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As cicatrizes de Kote/Kvothe.

Capítulo 4 – A meio caminho de Nalgures
Aqui temos a confirmação da natureza dos scrael: sim, são demônios. Não sei exatamente porque Kote fez Bast acreditar que não eram; eu também fiquei pensando que não até chegar a este capítulo. No entanto, o Cronista acaba topando com Kote e sua fogueira durante a noite, na estrada para Nalgures, e acontece o seguinte diálogo:

“– Por quê? O que há ali? (...)
– Para ser franco? (...) Demônios sob a forma de grandes aranhas negras. (...)
– Demônios não existem.
(...) O homem ruivo soltou uma gargalhada incrédula. – Bem, então acho que todos podemos ir para casa! – E deu um sorriso maníaco para o Cronista. – Escute, você me parece um homem instruído. Respeito isso e, na maioria dos casos, você teria razão. (...) Mas aqui e agora, nesta noite, está errado. Tão errado quanto se pode estar. É melhor que não esteja do lado de lá da fogueira quando descobrir isso.

Então podemos afirmar que sim, demônios estão se aproximando de Nalgures, e sabe-se lá por qual motivo escolheram um vilarejo tão pequeno e sem importância para atacar. Seria por conta de determinado ruivo, com um passado tão escuro quanto é possível? Mais uma vez penso que a presença dos demônios pode ser um presságio de que algo muito pior está para surgir.

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Kote enfrentando scraels.


Capítulo 5 – Notas
Ah, se você ficou em dúvida quanto ao motivo de tantos scrael terem surgido e atacado Kote, logo adiante Bast fica furioso afirmando que o hospedeiro guardou um pedaço do demônio que apareceu lá no primeiro capítulo para si. Kote confirma, e entendemos que ele o fez especificamente com o objetivo de atrai-los.
No final do curto capítulo também vemos o carinho com que Bast cuida de Kote. Então me veio à mente como ambos se conheceram, como ficaram tão amigos, como podem saber tanto um do outro. Será que isso tudo será revelado no próximo livro? Espero muito que sim.

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Bast e Kote.


Capítulo 6 – O preço da recordação
É aqui que o Cronista se revela como sendo Devan Lochees, bem como amigo do Skarpi – se essa não é sua primeira vez lendo, sabe muito bem de quem estamos falando. Também somos apresentados à famosa característica do Cronista: desmascarador. Não é de se espantar que Kote passe a ficar tão na defensiva. O Cronista também revela que sempre foi sua intenção ir atrás de Kote, e que apenas Skarpi sabe de sua ida até ali.
Acredito que você tenha notado que durante todo o texto até aqui eu tenha considerado que Kote está em Nalgures há pouquíssimo tempo. Aqui está o trecho responsável por essa minha convicção:

“- Sou o primeiro a admitir que talvez minha vinda aqui tenha sido um erro. – Fez uma pausa, dando a Kote a oportunidade de contradizê-lo. Ele não o fez. O Cronista deu um pequeno suspiro tenso e prosseguiu: - Mas o que está feito está feito. Você não quer ao menos considerar...
Kote abanou a cabeça.
– Isso foi há muito tempo...
 Não faz nem dois anos – protestou o escriba.

Para persuadir o hospedeiro a contar-lhe sua história como Kvothe, o Cronista joga no ar todas as teorias que existem ao respeito do ruivo. Dizem que foi apenas um mito, que nunca existiu; é retratado como pouco além de um assassino; que não é tratado como o herói que imagina ser, ainda que afirme ter merecido a alcunha de assassino após ter matado homens e “coisas que eram mais do que homens” que mereciam esse destino... E, por fim, ele menciona a teoria mais curiosa:

 Há até quem diga que existe um novo Chandriano. Um novo terror na noite. Ele tem o cabelo vermelho como sangue que derrama.

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É assim que o Cronista consegue convencer Kote a contar a sua história, como um modo de mostrar às pessoas o que realmente aconteceu, pelo que podemos assumir que todas as teorias mencionadas acima são irreais – embora eu realmente goste da que o coloca como um membro do Chandriano.
Outra coisa curiosa é que quando o Cronista se aproxima de mencionar que houve uma mulher, Kote fica imediatamente na defensiva. Logo em seguida, temos o trecho abaixo:

“O Cronista se viu pensando numa história que tinha ouvido. Uma dentre muitas. A história de como Kvothe saíra em busca do desejo de seu coração. Precisara enganar um demônio para alcançá-lo. Mas, depois de tê-lo nas mãos, fora obrigado a lutar com um anjo para conservá-lo. Eu acredito, descobriu-se pensando o escriba. Antes era só uma história, mas agora acredito nela. Esse é o rosto de um homem que matou um anjo.”

Gostaria de sugerir levemente duas personagens para você brigar consigo mesmo e imaginar quem seria o anjo, quem seria o demônio e quem seria o desejo de seu coração: Auri, Devi e Denna. Mas não se atenha a obviedades. Por exemplo, sei que Auri é tão pura e doce que dificilmente imaginaríamos que ela seria um demônio, com todos os sinais que Rothfuss deixa na história. Mas quer coisa mais surpreendente que essa? Por outro lado, tenho uma inclinação natural a não gostar da Denna – e por isso não a descarto como o possível demônio. Sabemos que Kvothe foi traído da forma mais cruel possível... Assumindo que amou Denna, quer maior traição do que ela nunca tê-lo amado e, pior ainda, se mostrar uma serva do Chandriano que existe apenas para atormentá-lo e segui-lo?



Capítulo 7 – Sobre primórdios e os nomes das coisas
Neste capítulo temos o início de Kote narrando a própria história, e o primeiro momento em que há a narração em primeira pessoa. Após surpreender o Cronista e dominar rapidamente o código que este inventou para que pudesse escrever rápido sem precisar colocar no papel palavra por palavra, o próprio Kote nos dá espécies de pequenos spoilers sobre o que virá pela frente. Ele fala sobre seu primeiro encontro com Denna, sobre ter entrado na Universidade, sobre o que levou até lá... Tudo isso numa rápida sucessão de afirmações. Há, depois, um trecho que nos dá spoilers de algumas coisas que sequer apareceram em O Temor do Sábio, e que provavelmente virão no terceiro livro:

“Já resgatei princesas de reis adormecidos em sepulcros. Incendiei a cidade de Trebon. Passei a noite com Feluriana e saí com minha sanidade e minha vida. Fui expulso da Universidade com menos idade do que a maioria das pessoas consegue ingressar nela. Caminhei à luz do luar por trilhas de que outros temem falar durante o dia. Conversei com deuses, amei mulheres e escrevi canções que fazem os menestréis chorar.
Vocês devem ter ouvido falar de mim.”



Por fim, vale destacar também essa citação:


“Esta, sob muitos aspectos, é uma história sobre o Chandriano.”


Há várias formas de se interpretar a afirmação, e eu queria sugerir uma para você: que é literalmente uma história sobre o Chandriano, pois está sendo contada pelo mais novo membro do grupo.




Capítulo 8 – Ladrões, hereges e prostitutas
É a partir daqui que o livro será narrado totalmente em primeira pessoa, através dos olhos e palavras de Kote, que contará sobre sua vida como Kvothe. É quando a narração fica mais pessoal por motivos óbvios, e vemos o personagem incutir em seu modo de narrar toda aquela habilidade teatral adquirida com os Edena (Edema no original) Ruh. Então sim, há muito dramaticidade e exageros, e é exatamente disso que eu gosto em O Nome do Vento.

“Meu pai era melhor ator e músico do que qualquer um que você já tenha visto. Minha mãe tinha um talento natural para as palavras. Ambos eram bonitos, de cabelos pretos e riso fácil. Eram Ruh até os ossos, e isso, a rigor, é tudo o que precisa ser dito; exceto, talvez, que mamãe tinha pertencido à nobreza antes de participar da trupe. Ela me contou que papai a seduziu a deixar “um inferno enfadonho e miserável” com melodias doces e palavras mais doces ainda. Só posso presumir que se refere a Três Encruzilhadas, onde estivemos visitando parentes uma vez, quando eu era muito pequeno.”

Arliden e Laurian, pais de Kvothe.

Aqui temos também o aparecimento de uma figura que foi de suma importância para o crescimento de Kvothe em todos os aspectos possíveis: Abenthy. Não fosse pelo arcanista, talvez Kvothe jamais tivesse entrado na Universidade. O próprio afirma:


“Havia ainda Abenthy, meu primeiro verdadeiro professor. Ele me ensinou mais do que todos os outros juntos. Não fosse por ele, eu jamais teria me transformado no homem que sou hoje.
Peço a você que não o censure por isso. Suas intenções foram boas.”

Após essas últimas frases, é preciso que a gente assuma uma coisa: Kvothe talvez não seja o herói que imaginamos. Aliás, essa seria a maior surpresa em toda a Crônica do Matador do Rei: descobrir que na realidade, ele ocupará a posição de vilão. Afinal, mesmo sendo tão arrogante, o personagem admite que não é bom – ou do bem. Que Abenthy o transformou no que é, o que foi um erro, embora não tenha sido essa intenção.
Neste capítulo foi a primeira vez que vimos a magia sendo feita, à exceção do momento em que Kote se irrita com o Cronista e uma das garrafas quebra na Marco do Percurso. Foi o que incentivou Kvothe a se aproximar de Abenthy, a atrai-lo para os Edena Ruh. Como ele mesmo afirma, apesar de ver muita utilidade em ter um arcanista no grupo, sabia que no fundo sua motivação era completamente egoísta. Ele queria chamar o vento exatamente como vira Abenthy fazer.
O encontro entre os dois, a propósito, exibe um momento de preconceito que parece ser bem comum para com os arcanistas, vistos quase como demônios pelos mais leigos, e para com os artistas itinerantes, mesmo renomados como os Edena Ruh, que eram tidos como prostitutas, ladrões e hereges.

“Essa era a parte mais difícil de crescer entre os Edena Ruh. Éramos estrangeiros em toda parte. Muitas pessoas nos viam como vagabundos e mendigos, enquanto outras nos julgavam pouco mais do que ladrões, hereges e prostitutas. É difícil sofrer acusações injustas, mas é pior quando quem nos olha com desdém são grosseiros que nunca leram um livro nem viajaram para mais de 30 quilômetros do lugar em que nasceram.”

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Abenthy e Kvothe.


Capítulo 9 – Andando de carroça com Ben
No nono capítulo vemos um pouco da nova rotina de Kvothe na companhia de Abenthy. O garoto passa a viajar na carroça do arcanista com frequência, e ambos fazem uma troca: o conhecimento do velho pela música dedilhada por Kvothe no alaúde emprestado do pai.
Kvothe se mostra uma criança inquisitiva e curiosa, sempre ávida por saber mais sobre todas as coisas, características que já havia mencionado no capítulo anterior. Há uma passagem que gosto muito nesse capítulo atual:

“Abenthy me olhou com ar avaliador. Era um olhar que dizia: ‘A sua fala não é tão jovem quanto a sua aparência’. Torci para que ele não se prolongasse nessa questão. É cansativo as pessoas se dirigirem a nós como se fôssemos crianças, mesmo quando por acaso o somos.”


Aqui temos a primeira olhadela ao sistema de magia que rege o universo de A Crônica do Matador do Rei, que não é exatamente uma magia: estamos falando das simpatias. Elas são muito mais exploradas nos capítulos em que Kvothe frequenta a Universidade.
É com Abenthy, e nesse capítulo, aliás, que o garoto toma conhecimento de como funciona o Arcanum e a Universidade, destino de Kvothe se ele quiser seguir seus novos objetivos de ser um arcanista e nomear o vento. O que se segue são verdadeiras aulas lecionadas por Abenthy ao garoto. Ele aprende muitas coisas, dentre as quais possivelmente não imaginou que aprenderia um dia, e teve um progresso rápido, mas não surpreendente se acreditarmos nas histórias que descrevem-no como prodigioso.




Capítulo 10 – Alar e diversas perdas
Aprendemos, com Kvothe, muito mais sobre as simpatias. É como o próprio Kote-narrador afirmou no final do capítulo passado: Abenthy está preparando o garoto para enfrentar o que está por vir na Universidade (que começará a frequentar muito mais cedo do que o próprio Kvothe imaginava). É também a primeira vez que é chamado de E’lir, “alcunha” essa que só recebia de Bem quando estava sendo teimoso de propósito.
No capítulo dez, Kvothe tem seus primeiros exercícios envolvendo a simpatia, basicamente são suas primeiras lições e com certeza, as mais desafiadoras. Afinal, aprender a lidar com a simpatia e o alar pela primeira vez é ir contra tudo o que lhe foi ensinado na vida até então. Trata-se, em síntese, de controlar as coisas com a força do pensamento – e Kvothe descobre que é infinitamente mais difícil do que foi um dia capaz de imaginar. Além de aprender o conceito básico do alar, Ben também ensina ao garoto o famigerado Coração de Pedra, que tanta importância terá não apenas nos livros já publicados, como aqueles que já leram notaram, mas muito provavelmente no terceiro livro também.

“Houve muitas outras lições, mas nenhuma tão axial quanto a do Alar. Ben me ensinou o Coração de Pedra, um exercício mental que permitia ao sujeito pôr de lado as emoções e preconceitos e pensar com clareza no que bem entendesse. Disse-me que o homem que realmente dominasse o Coração de Pedra seria capaz de ir ao funeral da própria irmã sem verter uma lágrima.”



Lanre e Kote

Eu gostaria mesmo de enfatizar a possibilidade de Kote ser um Chandriano, ou estar a meio caminho de assim tornar-se.
Lanre, de muitos modos, acaba por ser responsável pela tragédia que ocorre com Kvothe nos capítulos a seguir. Arliden estava focado numa canção sobre ele, mas Kvothe só descobre a história completa de Lanre muitos anos depois. A história do homem - ou mito, se você preferir assim - é sobre alguém que um dia foi visto como um herói, como uma pessoa virtuosa e cheia das melhores qualidades. E, de modo bem resumido, ele acabou perdendo o amor da sua vida (eu entendi que ele a matou num acesso de loucura), passando por um sofrimento indescritível, o que acabou por desvirtuá-lo completamente. Revoltado, seu novo objetivo passou a ser destruir o mundo. E adotou um novo nome.

“(...) Mas sabia a verdade. Já não sou o Lanre que conheceste. A mim pertence um novo e terrível nome. Sou Haliax, e nenhuma porta é capaz de barrar minha passagem. Está tudo perdido para mim: nem Lyra, nem a doce fuga do sono, nem o abençoado esquecimento; até a loucura foge ao meu alcance. A própria morte é uma porta aberta para meu poder. Não há como escapar. Resta-me apenas a esperança do vazio, depois que tudo se for e que o Aleu cair do céu, anônimo.”

Sim. Lanre, um dia considerado o melhor guerreiro e mais virtuoso dos homens, tornou-se o líder do Chandriano, capaz de incutir medo no próprio Gris/Cinder. Vamos compará-lo à história de Kvothe/Kote? Ambos foram pessoas prodigiosas com feitos memoráveis. Ambos amaram mulheres, e possivelmente acabaram por matá-las (e se isso for o que mais atormenta Kote?). Ambos, por isso, passaram por um sofrimento indizível. Até aí, está tudo certo. Nada indica, a propósito, que a transformação de Lanre tenha ocorrido conscientemente, ou através da própria vontade.
Poderia estar o mesmo acontecendo com Kote? Será que no fundo ele sabe disso, e por isso tem rompantes de fúria em que parece um vilão, especialmente com o Cronista, e se sente culpado por ser quem é? Será que não é o Chandriano que está atrás dele, mas os Amyr? Abre-se aqui uma possibilidade. Meio louca, certo? Mas é uma possibilidade. Como eu disse, as semelhanças entre Lanre e Kote são imensas, e todos já podemos assumir que nosso protagonista ruivo não é a melhor pessoa que existe na face dos Quatro Cantos da Civilização. E voltando a falar um pouquinho dos scrael: e se eles estiverem sendo atraídos por Kote como um ímã? Isso, claro, contradiz a teoria de que eles pressagiam algo ruim chegando... Exceto se quem está chegando é Haliax, determinado a matar Kote e acabar com a ameaça de que nosso ruivo possa ser o novo líder do Chandriano. Sim, mereço o selo viagem de teorização.

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Haliax, que segundo as lendas deve sua aparência a Selitos.

Esses foram os dez primeiros capítulos de O Nome do Vento, além do prólogo. Os comentários estão abertos a sugestões, críticas e opiniões de toda sorte. E, acima de tudo, quero que você responda a seguinte pergunta: essa postagem foi capaz de fazê-lo refletir mais acerca da história? Se sim, meu papel aqui foi cumprido e as horas dedicadas a escrever essa postagem não foram em vão. :p.


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