#RelendoKvothe || Releitura de O Nome do Vento – Parte 2

Postado por - sábado, maio 06, 2017

Oie, tudo bem? Então aqui estamos nós com a segunda parte do projeto #RelendoKvothe. Dessa vez, a leitura abrangeu os capítulos 11 – 20. Reler esses capítulos, incluindo os que eu falei na parte 1, me fez compreender o motivo de eu ter demorado tanto a engatar na leitura: exceto se você já conhece a história, provavelmente os quinze primeiros capítulos parecerão maçantes demais. Afinal, não se pode negar que O Nome do Vento é um livro com pouca ação, se destacando muito mais pela narração de Kote e pelo sofrimento de Kvothe do que por momentos de tensão e cenas épicas. Então dois pontos positivos para você começar a se apaixonar pela história a partir daqui: além de a narração ter mudado em definitivo, passando a ser em primeira pessoa na maioria dos capítulos, os acontecimentos começaram a ficar mais interessantes para quem está tendo um primeiro contato com o universo de Patrick Rothfuss. Porém, se você chegou nessa altura do campeonato e continua sem gostar da história, recomendo que deixe O Nome do Vento de lado por um tempo e tente retomar a leitura em outra oportunidade. Sério, não force a barra.
Agora, se você está relendo ou se é a sua primeira vez mas já está apaixonado, vem aqui comigo para a análise capítulo a capítulo dessa história fascinante.


Capítulo 11 – A conexão do ferro
Aqui temos mais do aprendizado de Kvothe com Abenthy quanto às simpatias. Kote, em sua narração, nos dá breves explicações sobre como funciona a simpatia e as conexões. Nada de muita novidade ou material para teorias, até que finalmente pulamos para a parte interessante do capítulo: a origem da mãe de Kvothe.
Antes de tudo, sei que no último post chamei-a pelo nome de Laurian. É como, de fato, ela se chama. Só que isso não é revelado no primeiro livro, apenas no segundo, então meio que dei spoiler e me desculpo por isso :p Mas fique tranquilo, não estraguei absolutamente nada ao falar o nome de Laurian. Isso não influencia em muita coisa na história.
Enfim. Destaquemos aqui o momento em que ela flagra Kvothe cantarolando algo que escutou outras crianças cantarem. A música se refere a uma tal Lady Lackless.


“Lady Lackless tem sete coisas não reveladas
Sob o vestido negro guardadas.
Uma é um anel, não para enfeitar,
Outra, uma palavra ardente, não para xingar.
Bem junto à vela do marido, secreta,
Fica uma porta sem maçaneta.
Numa caixa que nem tampa ou chave tem
Ficam as pedras do marido também.
Há um segredo que ela anda guardando:
Lackless não vem dormindo, mas sonhando.
Numa estrada que não é para viajar
Agrada-lhe seu enigma enredar.”



Guarde bem estas rimas. Elas serão muito importantes especialmente em O Temor do Sábio – não lembro exatamente o porquê e preciso reler por isso.
De qualquer modo, a mãe de Kvothe o flagra cantarolando a cantiga. Num primeiro momento, parece que ela está repreendendo o filho por conta do teor sexual das rimas, além do “tom de fofoca” que aparentam ter. Mas se você reparar bem no diálogo que se segue, conseguirá pegar pequenas pistas que mostram que Laurian ficou incomodada com a canção por outros motivos. Kvothe tenta argumentar, alegando que há outras canções com teor sexual que fazem parte da rotina da trupe. A resposta de Laurian é a seguinte:

“– (...) lady Perial é só um personagem. Lady Lackless é uma pessoa real, cujos sentimentos podem ser melindrados.” 
“– Apenas se lembre de pensar no que faz (...) Acho que você poderia se redimir com Lady Lackless e comigo se fosse procurar umas urtigas-brancas para eu pôr na panela do jantar de hoje.”

No primeiro trecho, Laurian utilizou o tempo verbal no presente – o que pode indicar que ela assume que Lady Lackless existe até os dias atuais. No segundo trecho, ela diz que Kvothe poderia se redimir com ela mesma, Laurian, e com Lady Lackless ao mesmo tempo. Uma brincadeira ou algo mais sério que podemos ver nas entrelinhas? Não são poucas as teorias que apontam que Laurian seria, na realidade, parte da família Lackless.
Veja bem: logo no segundo livro você conhecerá um membro da família Lackless, que é da nobreza de Vintas. Essa mesma pessoa odeia os Edena Ruh, pois segundo conta, sua irmã mais nova fugiu com uma trupe itinerante porque apaixonou-se por um de seus integrantes. Então aqui temos pistas suficientes para acreditar que Laurian era/é a Lackless perdida. Mas isso, claro, será melhor discutido em O Temor do Sábio.

Pequena ironia: neste mesmo capítulo a mãe de Kvothe lhe diz para ter cuidado com o que canta... Um aviso que ela mesma e Arliden ignoraram.



Capítulo 12 – Peças encaixadas no quebra-cabeça

O décimo segundo capítulo foca numa conversa entre Abenthy, Laurian e Arliden sobre a música que o último está compondo, enquanto Kvothe escuta tudo escondido. Algumas coisas concretas sobre o Chandriano aprendemos com Ben: por exemplo, eles são sete.

“– Essa eu sei responder – afirmou Ben. – São sete. A isso você pode se ater com alguma certeza. Na verdade, faz parte do nome deles. Chaen significa sete. Chaen-dian significa ‘sete deles’. O Chandriano.”


Outra coisa importante a destacar aqui é que na página 86 está o provável motivo de o Chandriano ter ido atrás dos Edena Ruh. Arliden comenta com Ben que parece finalmente ter descoberto a razão deles. Não pode ser coincidência que algum tempo depois, aconteça o que aconteceu. Afinal, segundo Kvothe, faz um ano e meio que Arliden está compondo a música e pesquisando sobre Lanre, Lyra e o Chandriano e nada havia lhe acontecido. Não deveria apresentar grande perigo ao grupo até então – como ele mesmo dizia, tudo o que sabia eram fragmentos remendados que no final nem faziam tão sentido por apontar para diversos caminhos. Mas então ele declara saber a razão, aquilo que move o Chandriano, e parece estar perigosamente próximo de algo que eles não querem que seja descoberto...
Enfim, o restante da conversa gira basicamente em torno dos sinais do grupo, com Abenthy demonstrando um grande receio em falar do Chandriano em voz alta – algo tipo falar o nome de Voldemort no universo de Harry Potter, sabe?
Na página 89, Abenthy propõe uma reflexão interessante quanto a acreditar ou não em criaturas como demônios, encantados e no próprio Chandriano. Reiteremos aqui que todos encaram as histórias como lendas sem qualquer existência fática. É uma pena que descubram a verdade da pior forma...


Mais tarde, a conversa muda para Abenthy falando aos pais de Kvothe o quanto o garoto é inteligente e esperto demais para a sua idade, que de fato possui uma aptidão extraordinária para as coisas. É também a primeira vez que Kvothe ouve e considera a possibilidade de ingressar na Universidade como real. Sinais importantes a se destacar nesse capítulo, além do já mencionado: Laurian dá mais pistas sobre sua nobreza e seu passado em duas passagens. Quando Abenthy menciona que Kvothe possui mãos maravilhosas, Laurian afirma que “ele os herdou do pai (...), perfeitos para seduzir as filhas jovens dos nobres”. Logo em seguida, quando brincam sobre Kvothe ser filho de algum deus, ela afirma:

“– Pensando bem, houve uma noite, há mais ou menos 12 anos, em que um homem se aproximou de mim. Atou-me com beijos e acordes de canções. Roubou minha virtude e me raptou. – Fez uma pausa. – Mas ele não tinha cabelo ruivo. Não pode ter sido esse.”


Capítulo 13 – Interlúdio: Carne com sangue por baixo

O interlúdio serviu para nos mostrar quem Bast realmente é. Já vimos várias referências ao seu modo gracioso de andar, o que foi uma pista bem pequenininha de sua natureza, mas é aqui que a gente confirma nossas suspeitas.

O Cronista, Bast e Kote na Pousada Marco do Percurso.
“Para sermos justos, é preciso dizer uma coisa sobre Bast. À primeira vista, ele parecia um rapaz comum, embora atraente. Mas havia algo diferente. Por exemplo, usava botas pretas de couro macio. Pelo menos, era o que se via ao olhá-lo. No entanto, se por acaso você o vislumbrasse pelo canto do olho e ele estivesse parado no tipo certo de sombra, talvez você visse algo inteiramente diverso. E se você tivesse o tipo certo de mente, aquele tipo de mente que realmente vê aquilo para que se olha, talvez notasse que os olhos dele eram estranhos. Se sua mente tivesse o raro talento de não se deixar enganar por suas próprias expectativas, você notaria uma outra coisa neles, algo insólito e maravilhoso.”

Bast é pego bisbilhotando a história que Kote narra ao Cronista, e então o hospedeiro ordena que ele fique e ouça até o final. Mas um pequeno conflito acontece entre Bast e Devan. Foi útil para descobrirmos informações sobre os dois: Bast tem cento e cinquenta anos, está há dois com Kote, e é na verdade Bastas, filho de Remmen, Príncipe do Crepúsculo e dos Telwyth Mael. Devan, o Cronista, não é apenas um escriba e historiador, mas também membro do Arcanum, no mínimo Re’lar, e uma entre as poucas pessoas no mundo que conhecem o nome do ferro.
Agora vamos destrinchar um pouquinho as coisas.
Remmen é, óbvio, o pai de Bast, e rei dos Telwyth Mael, que parece ser uma espécie de sub-divisão dentro do reino dos encantados/fae. Não temos muitas pistas sobre, pelo menos ainda. Quanto ao título Príncipe do Crepúsculo, peço a você que já conhece os livros, que avance um pouco em suas lembranças e recorde que Feluriana é a Senhora do Crepúsculo. Apenas queria deixar isso aqui, bem frisado.
Quanto ao Cronista, ele conhece o nome do ferro, e por este motivo, ao proferi-lo, estabelece uma conexão que imobiliza e causa dor extrema a Bast. Será que ele realizou uma espécie de conexão com o ferro no sangue do fae?

“Ele tinha mudado. Os olhos que vigiavam o Cronista ainda eram de um impressionante azul marinho, mas agora pareciam ter uma cor só, como pedras preciosas ou lagoas nas profundezas da floresta, e suas botas de couro macio tinham sido substituídas por graciosos cascos fendidos.”


Capítulo 14 – O nome do vento

Aqui vemos que um momento de insensatez de Kvothe quase lhe custou a vida. As suas aulas com Abenthy continuaram, e o garoto tentou demonstrar ao arcanista que é espertinho e conseguia fazer algo semelhante ao que viu Ben fazer quando este chamou o nome do vento, alguns capítulos atrás.

“Em retrospectiva, o que fiz foi de uma estupidez gritante. Quando conectei minha respiração ao ar do lado de fora, isso me tornou impossível respirar. Meus pulmões não tinham força suficiente para mover tanto ar assim. Seria preciso que eu tivesse um peito como um fole de ferro. Minha sorte seria a mesma se eu tentasse beber um rio ou levantar uma montanha.”


O seu pequeno momento de grande insensatez viria a refletir e muito em toda a sua relação com Abenthy. Não que o arcanista tenha passado a odiá-lo – só pareceu ficar muito mais cuidadoso. Pergunto-me se Ben não começou a ficar preocupado com a hipótese de Kvothe tornar-se um segundo Haliax... Pois, neste mesmo capítulo, Ben afirma ao seu aprendiz que “conhecer a história de Lanre talvez lhe dê alguma perspectiva”. É por este motivo que acredito que, a partir do momento em que a insensatez de Kvothe quase lhe tirou a vida, Abenthy tornou-se três vezes mais cauteloso e até receoso quanto ao garoto. Aparentemente, Ben não tinha certeza quanto à natureza do ruivo. Kvothe, afinal, mostrou-se perigoso. Talvez perigoso demais para possuir tanto conhecimento. Imaturidade, insensatez, orgulho obstinado: nada disso é uma boa combinação. Por um momento, tenho certeza que Ben vislumbrou um péssimo futuro para seu aprendiz.

As aulas se reduziram até quase parar. Ben suspendeu meus estudos iniciantes de alquimia, restringindo-me à química. Recusou-se a me ensinar qualquer noção de siglística e, ainda por cima, começou a racionar as poucas simpatias que julgava seguras para mim.”



Capítulo 15 – Distrações e despedidas

O décimo quinto capítulo é como aqueles momentos de sua vida em que tudo está tão perfeito, mas tão perfeito, que você sabe que cedo ou tarde aparecerá uma bomba porque as coisas não podem ser tão maravilhosas assim o tempo todo. É um dos dias mais felizes da vida de Kvothe, ainda que marcado por uma triste despedida. Kote narra essa data com tão grande riqueza de detalhes que você entende o quanto aquele dia lhe foi importante. Não tratou-se apenas da comemoração do seu décimo segundo aniversário, mas e um momento de sorrisos fáceis, abraços calorosos, presentes queridos e lágrimas sinceras. É também a primeira vez que vemos alguém cantar o Lai de Sir Savien Traliard, no caso uma das únicas pessoas, segundo Kote, capaz de executá-la e declamá-la com perfeição – seu pai, Arliden.
O pai de Kvothe também dá uma pequena prova da canção que está construindo, cantando apenas o primeiro trecho:

Lanre, Lyra e Haliax.

“Sentem-se e ouçam todos, pois cantarei 
Uma história criada e esquecida em velhos 
E idos tempos. 
A história de um homem: 
O orgulhoso Lanre, forte como o flexível aço, 
Da espada que sempre tinha pronta à mão. 
Ouçam como ele lutou, caiu e tornou a se erguer, 
Para de novo tombar e à sombra padecer. 
Derrubado pelo amor, o amor à terra natal, 
E o amor por sua esposa, Lyra, a cujo chamado fatal 
Ele se ergueu e cruzou as portas da morte, ouvi dizer, 
Para pronunciar o nome da amada 
Como o sopro primeiro de seu renascer.”

Por fim, no dia seguinte à comemoração e despedida de Ben, Kvothe encontra um exemplar de Retórica e Lógica do arcanista, bem como um bilhete:

“Kvothe, 
Defenda-se bem na Universidade. Deixe-me orgulhoso. 
Lembre-se da canção de seu pai. Cuidado com a insensatez
Seu amigo 
Abenthy”

Considerando que a canção de Arliden se resumiu apenas ao trecho acima, ao que Abenthy poderia estar se referindo ao dizer para Kvothe lembrar da canção do pai? Referia-se ao orgulho de Lanre? Sobre como lutou, caiu, ergueu-se e mais uma vez caiu por conta de sua insensatez?
Aqui reitero o que afirmei na parte 1: a espada de Kote ter recebido esse nome não é mera coincidência ou um modo de homenagear Abenthy. Vai muito além disso, certamente.

Capítulo 16 – Esperança

Apenas a título de curiosidade, aqui temos mais uma dica da nobreza de Laurian, quando Kote narra que a mãe começou a ensiná-lo os modos e regras que deveria seguir quando estivesse em companhia de pessoas refinadas.

Enfim. Este capítulo é onde as coisas começam a dar errado para Kvothe. A primeira pista de que isso irá acontecer vem através de um comentário de Arliden, que certamente nenhum de nós deve ter levado a sério no momento da primeira leitura.

“– Francamente! – exclamou papai, virando a carroça em direção a uma clareira à margem da estrada. – Esta é ou não é a estrada real? É como se fôssemos as únicas pessoas nela! Há quanto tempo foi aquele temporal? Duas onzenas?”

Como você pode perceber, eles estão há muitos dias andando pela estrada real, e pelo visto sem encontrar nenhuma pessoa ou qualquer indício de que estejam alcançando o destino. E isso tudo há mais de dezesseis dias. Se Arliden, que há tanto tempo vive com os Edena Ruh e deve ter andado por aquela estrada centenas de vezes, se estressou com o tempo e a quantidade de árvores partidas que encontram no caminho, certamente a situação toda deve ser estranha. Será que já estavam sob influência de alguma espécie de poder do Chandriano, que os isolou momentaneamente do mundo real para fazer o que fizeram depois?
De qualquer forma, devido ao carvalho caído, a trupe é obrigada a parar. Laurian pede a Kvothe que vá procurar por uma espécie de planta nas redondezas de onde estão acampados. E assim, tão de repente, essa é a última vez que o garoto vê a única família que conheceu com vida.

“Espero que tenham aproveitado bem aquelas últimas horas. Espero que não as tenham desperdiçado em tarefas insignificantes, como acender a fogueira para a noite e picar legumes para o jantar. Espero que tenham cantado juntos, como faziam tantas vezes. Espero que se tenham recolhido à nossa carroça e passado um bom tempo nos braços um do outro. Espero que depois tenham-se deitado bem juntinhos e conversado em voz baixa sobre bobagens. Espero que tenham ficado juntos, ocupados em se amar, até chegar o fim. 
É uma pequena esperança, e inútil, na verdade. Eles estão mortos, de qualquer jeito. 
Mesmo assim, eu espero.”


Quando Kvothe retorna, tudo está destruído. As chamas consomem as carroças e rostos tão familiares fixam o céu logo acima com olhares vidrados e vazios. A cena de destruição é completa, e uma das coisas que Kvothe nota é que todas as chamas, sendo de fogueiras ou incêndios, tinham um toque azulado.
Outra coisa que ocorre é, quando o garoto se aproxima de uma carroça para ouvir melhor as vozes estranhas que escuta conversando entre si, apoia-se na roda. As tiras de ferro se esfarelam no mesmo instante, bem como a madeira da carroça, apodrecida, se desfaz em lascas. Quando isso acontece, a presença de Kvothe é notada por ninguém mais, ninguém menos que Gris.

“– Rapazinho, onde estão seus pais? (...) Alguém sabe onde estão os pais dele? (...) Esta é a fogueira dos seus pais? – perguntou, com terrível prazer na voz. Assenti com a cabeça, aturdido. (...) – Os pais de alguém andaram cantando o tipo inteiramente errado de canção.”
Então o que apreendemos deste capítulo: que quem está ali é, de fato, o Chandriano. Apenas Haliax e Gris se pronunciam. Haliax é uma entidade (por falta de palavra melhor) em torno do qual as sombras se acumulam, e é o líder dos sete. Parece guardar alguma piedade dentro de si, talvez dos tempos como Lanre, quando ordena que Gris mate de uma vez Kvothe, encerrando aquela tortura psicológica com alguém que não fez nada, como o próprio afirma. Gris é um servo de Haliax, embora pareça não gostar muito disso, e tem uma aparência que me fez recordar Bast – os olhos sem íris, o caminhar gracioso. Mas não apenas isso me remeteu imediatamente ao aprendiz de Kote: em um momento do capítulo, Haliax faz com Gris o mesmo que o Cronista fez com Bast. Então me veio a dúvida: seria férula o nome do ferro? Será que o Cronista e Haliax utilizaram a mesma conexão?

“― Você é um instrumento em minhas mãos — interrompeu gentilmente o homem envolto em sombras. ― Nada mais. 
Um toque de desafio se esboçou na expressão de Gris. Ele fez uma pausa. 
― Eu gos... 
Férula — disse a voz baixa, endurecendo-se como uma barra de aço de Ramston. 
A graça mercurial de Gris desapareceu. Ele cambaleou, com o corpo subitamente enrijecido de dor.

Logo em seguida, Haliax pressiona Gris, inquirindo-lhe sobre quem lhe protege dos Amyr, cantores, sithes e de todos os que gostariam de feri-lo no mundo. Os Amyr nós sabemos quem são (espécie de cavaleiros templários, conhecidos formalmente como Ordem Sagrada dos Amyr, que segundo os mitos foi fundada por Selitos com o objetivo de caçar e destruir o Chandriano). Os cantores, imagino que sejam pessoas como Arliden. Agora dos sithes não temos muitas certezas, exceto que são uma facção formada por fae cujo objetivo é proteger e guardar Cthaeh, personagem icônico do segundo livro.
Enfim, o diálogo entre Haliax e Gris se encerra repentinamente, logo no momento em que Haliax começa a voltar sua atenção a Kvothe. Algo muda no ar e todos ficam em silêncio estático, enquanto o garoto afirma que tem a sensação de estar sendo observado. Haliax logo os chama para perto de si, envolve todos os outros seis nas sombras que cercam-no e desaparecem, não sem antes dizer “Eles estão vindo”.
Aí me pergunto: quem estava indo? E por que não apareceu? Kvothe permaneceu ali, afinal de contas. Até dormiu na carroça dos pais após enterrá-los em sepulturas que cavou até os dedos sangrarem. Sozinho, acordou apenas quando as velas que acendera provocaram um pequeno incêndio na carroça. Resgatou o que lhe era querido, incluindo o alaúde do pai e o exemplar do livro de Ben, e foi para a floresta. Se foi a presença dos Amyr ou até de Selitos que Haliax sentiu e se assustou, eles com certeza não apareceram para Kvothe.
Espero um dia ter uma resposta para isso, porque fiquei realmente curiosa.


“Meus dedos doíam, mas toquei assim mesmo. Toquei até sangrarem nas cordas. Toquei até o sol brilhar por entre as árvores. Toquei até ficar com os braços doloridos. Toquei, tentando não lembrar, até adormecer.”


Capítulo 17 – Interlúdio: Outono

Mais uma pausa na história de Kvothe para retornar ao presente, na Marco do Percurso. O interlúdio mostra um Bast preocupado com Kote: ao segurá-lo para interceptar o ataque de Bast ao Cronista, o hospedeiro acabou ferindo o pulso do primeiro. Bast, porém, não quer que Kote saiba disso, pois sabe que o homem se sentirá culpado. Aqui, portanto, a gente tem uma provinha do quanto Bast se importa com o ruivo – e eu não consigo imaginar o motivo, torcendo para que As Portas de Pedra finalmente explique como esse relacionamento teve início e o que está a sustentá-lo.
O interlúdio também mostra Kote tentando ser forte, até o momento em que dá uma desculpa para sair da hospedagem e se dirigir ao bosque nos fundos. É ali que chora, que se desmonta em lágrimas com as lembranças terríveis, sozinho e destroçado, com um orgulho férreo demais para permitir que vertesse ao menos uma lágrima diante de Bast e do Cronista.

Vale destacar uma fala de Kote neste interlúdio (que me deixou a dúvida: o que poderia ser pior?):

“– Agradeço seu interesse, mas isto é apenas um pedaço da história, nem sequer o pior, e não o estou contando para despertar piedade.”




Capítulo 18 – Estradas para locais seguros

No décimo oitavo capítulo temos a passagem mais linda e tocante de A Crônica do Matador do Rei, na minha opinião. É aquela que fala sobre as portas da mente, que eu pretendo um dia pintar em uma parede do meu quarto, tamanho é o amor que tenho por ela. Logo depois, em termos de partes favoritas, vem O silêncio em três partes (só por curiosidade mesmo hahaha).

“A maior faculdade que nossa mente possui é, talvez, a capacidade de lidar com a dor. O pensamento clássico nos ensina sobre as quatro portas da mente, e cada um cruza de acordo com sua necessidade. 
Primeiro, existe a porta do sono. O sono nos oferece uma retirada do mundo e de todo o sofrimento que há nele. Marca a passagem do tempo, dando-nos um distanciamento das coisas que nos magoaram. Quando uma pessoa é ferida, é comum ficar inconsciente. Do mesmo modo, quem ouve uma notícia dramática comumente tem uma vertigem ou desfalece. É a maneira de a mente se proteger da dor, cruzando a primeira porta. 
Segundo, existe a porta do esquecimento. Algumas feridas são profundas demais para cicatrizar, ou profundas demais para cicatrizar depressa. Além disso, muitas lembranças são simplesmente dolorosas e não há cura alguma a realizar. O provérbio “O tempo cura todas as feridas” é falso. O tempo cura a maioria das feridas. As demais ficam escondidas atrás dessa porta. 
Terceiro, existe a porta da loucura. Há momentos em que a mente recebe um golpe tão violento que se esconde atrás da insanidade. Ainda que isso não pareça benéfico, é. Há ocasiões em que a realidade não é nada além do penar, e, para fugir desse penar, a mente precisa deixá-la para trás. 
Por último, existe a porta da morte. O último recurso. Nada pode ferir-nos depois de morrermos, ou assim nos disseram.”

Eu acho que estas portas da mente têm um significado mais específico do que mera narrativa poética e palavras bonitas. Afinal, mais à frente, quando Kvothe ouve a história de Lanre, as mesmas portas são mencionadas. Em minha teoria, esta passagem tem um grande valor para a história como um todo. Descobriremos isso mais adiante, quem sabe?
Quanto ao capítulo, ele é curtinho e mostra o primeiro dia de Kvothe sozinho e andando a esmo, após ter perdido toda a sua família – tanto a de sangue quanto a de coração. Quando foge para a primeira porta, a do sono, acaba sonhando com todas as coisas importantes para a sua sobrevivência que já aprendera ao longo dos doze anos de idade. É interessante a forma que sua mente encontra para recordar coisas tão importantes que lhe garantiram que sobrevivesse tanto tempo ali, sozinho.


Capítulo 19 – Dedos e cordas

Aqui temos a rotina de Kvothe sendo apresentada. Uma nova rotina que inclui procurar o que comer, tocar alaúde e esquecer toda aquela tragédia. Conscientemente, o garoto evita lembrar da morte dos Edena Ruh, bem como de seu encontro com o Chandriano. Ele simplesmente come e toca. Mais tarde, quando esgota todo o seu repertório musical, inventa novas músicas e acrescenta pedaços àquelas que só ouviu uma parte.
Meses se passam, a primeira corda do alaúde de sete cordas se rompe. Persistente, Kvothe reaprende a tocar, até que mais duas também partem. Não é o fato de estar vivendo na floresta, nem a solidão, nem mesmo a fome pela comida insuficiente que levam o garoto a procurar alguma cidade: são aquelas três cordas partidas que ele precisa repor, pois a maior certeza que tem na vida é que o alaúde é seu bem mais precioso e que tocá-lo é a única coisa que pode, deve e irá fazer.

É apenas por isso que ele chega em Tarbean, na companhia de um aldeão caipira que, apiedando-se, encontra-o na estrada e lhe oferece carona. Após tanto tempo, o aldeão e seu filho são a primeira pessoa com quem Kvothe troca algumas palavras.


Capítulo 20 – De mãos ensanguentadas a punhos de dor lancinante

Este capítulo traduz as “boas-vindas” de Tarbean a Kvothe. Ou seja, é apenas a primeira noite das muitas em que o garoto sofre, quase morre de frio e de fome e é espancado nas ruas da cidade. Nesse vigésimo capítulo, ocorre o primeiro encontro do jovem Kvothe com Pike e seus amigos de rua imbecis. O primeiro encontro não termina muito agradável: o ruivo apanha até desmaiar e o alaúde, antes do pai, fica em pedaços. Esse é apenas um dos socos que a vida insiste em dar em Kvothe, achando que ele talvez não tenha sofrido o suficiente... Enfim, daqui não há muito o que se pescar em termos de teorias. Só sofrimento, dor e saudade.


Kvothe até tenta retornar à praça e encontrar de novo o aldeão que lhe deu carona e seu filho, conforme ele dissera para estar ali até o crepúsculo caso quisesse retornar para a sua fazenda e passar a morar com ele, mas o garoto chega tarde demais e tudo o que lhe resta é dormir nas ruas.


“As pedras do calçamento estavam perdendo o restinho do calor do sol e o vento foi ficando mais forte. Recuei até a porta da livraria para me proteger dele. Tinha quase adormecido quando o dono da loja abriu a porta e me deu um pontapé, dizendo para eu cair fora, senão chamaria o guarda. Saí capengando o mais depressa que pude. 

Depois disso, encontrei uns caixotes vazios numa ruela. Encolhi-me atrás deles, baleado e exausto. Fechei os olhos e procurei não lembrar como era dormir aquecido e farto, cercado por pessoas que me amavam. 

Assim foi a primeira noite dos quase três anos que passei em Tarbean.



Então, esta foi a segunda parte do projeto #RelendoKvothe. Conforme eu disse no comecinho da postagem, é a partir do capítulo 16 que as coisas ficam interessantes – pois os quinze primeiros não são tão emocionantes ou bacanas para quem está tendo um primeiro contato. A partir daqui, do capítulo 20, a história de Kvothe realmente terá início, com todos os seus infortúnios e desgraças, bem como com os momentos de felicidade momentânea.
Peço a você, que está se aventurando com Kvothe pela primeira vez, que não acredite muito em Kote e tenha em mente que ele é uma pessoa extremamente orgulhosa. Decida por si mesmo naquilo que acredita e o que não merece tanto crédito.
Mas e aí, você está gostando de ler? Sentiu alguma dificuldade ou a leitura fluiu lindamente? E você, que está relendo? Quanta coisa você achou agora que deixou passar batido na(s) primeira(s) vez(es)? Tem alguma teoria diferente para apresentar? Vamos conversar!

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